'São Nicolau nos protege': a vida no Sul da Ucrânia, a 30 quilômetros do front

Nenhuma área escapa dos ataques indiscriminados com mísseis a Mikolaiv, cidade ucraniana onde mais da metade da população fugiu da guerra

Porto Velho, RO - Ucrânia — Existem aposentados que passam a manhã observando a evolução das obras públicas em sua cidade. Alexánder Gavrish e seus amigos de dominó têm outra distração: controlam cada pessoa que passa pela Praça Kashtanovi, de Mikolaiv, no Sul da Ucrânia.

— Estamos aqui vigiando para que ninguém tire fotos da praça ou faça coisas estranhas, como vocês — diz Gavrish, dirigindo-se aos repórteres.

O medo dos cidadãos ucranianos em relação aos infiltrados russos e a obsessão por não difundir informação que possa servir ao inimigo levam esses aposentados manterem-se firmes até mesmo sob chuva e com os estrondos da artilharia ameaçando a todos. O front da guerra está a apenas 30 quilômetros de distância.

— Vocês têm medo? — pergunta o jornalista quando uma explosão acaba com o silêncio da praça vazia.

— Ah, não! São Nicolau nos protege — diz ele, apontando para a estátua do meio da praça, representando o patrono desta cidade situada na foz do rio Bug.

Mas a maiora da população tem medo: de quase meio milhão de pessoas de Mikolaiv, restaram apenas cerca de 200 mil. O restante se foi para o Oeste do país ou para o exterior.

As tropas russas já ocuparam Jersón, a 40 quilômetros, ainda que os arredores da cidade, na região do delta formado pelos rios Bug e Dnieper, ainda sejam cenário de constante intercâmbio de artilharia e de choques entre unidades russas e ucranianas.

Os enviados do El País puderam comprovar, na sexta-feira passada, durante uma visita ao aeroporto de Mikolaiv, destruído por mísseis russos: tiros de canhão e de fuzis podiam ser escutados a dez quilômetros de distância.

Dez mísseis por dia

Na rua Soborna, no Centro de Mikolaiv, pouquíssimas pessoas se deixam ver na hora do almoço. O porta-voz do Exército ucraniano na província detalhou que pelo menos dez mísseis caem diariamente na zona urbana. Um míssil balístico russo procedente do Mar Negro destruiu, em março, a sede do governo regional da província.

Não longe dali, em um solitário passeio sobre o asfalto da rua Soborna — onde a duras penas os carros circulam — vê-se um casal com um carrinho de bebê. Misha e Kate Govorov têm um filho de 1 ano e, diferentemente da maioria das famílias com crianças, não abandonaram a cidade. Argumentam que sua casa está lá e que seus pais não podem ser evacuados por causa da idade avançada.

Aos 32 anos, a fotógrafa Kate Govorov afirma que passou horas chorando quando viu as imagens das execuções de civis em Bucha, ao norte de Kiev. Ela e seu marido admitem que estão nervosos por uma possível invasão das tropas russas. Sabem que, se isso acontecer, terão que sair de Mikolaiv em direção a Kiev.

As pontes, os estaleiros do Bug, os edifícios administrativos ou as áreas residenciais: nenhum canto escapa aos ataques indiscriminados de foguetes que caem sobre Mikolaiv. Nos núcleos habitados, a violência da guerra é ainda mais implacável.

Natasha Mazurenko teve que se trancar em um porão por dois dias depois que sua aldeia nos arredores de Mikolaiv foi ocupada por quatro colunas de blindados russos:

— Eles não tentaram matar ninguém até que tiveram que se retirar devido à nossa contra-ofensiva. Então eles se despediram atirando em nossas casas e saqueando o que podiam.

'Não estamos com medo'

Mazurenko é balconista em uma loja de doces e chocolates, sem clientes a maior parte do dia. Quase não há mais crianças em Mikolaiv, e as poucas que permanecem estão se preparando para partir com suas mães nos comboios de ônibus que saem várias vezes ao dia para a estação de trem de Odessa.

As imagens do ataque à estação de Kramatorsk abalaram os ânimos dos moradores desta cidade de frente para o Mar Negro. Pelo menos 57 civis perderam suas vidas lá. Mazurenko, de 23 anos, diz que não é possível que isso aconteça em Mikolaiv porque confia na força da defesa ucraniana, uma afirmação que muitos dos entrevistados repetem de memória.

Ao mesmo tempo, esta mãe de uma criança admite que estava com medo em sua aldeia. Outras pessoas consultadas afirmam que Mikolaiv e Odessa não sofrem o assédio que Donbas sofre, e que uma invasão russa aqui seria suicídio.

— Não estamos com medo porque já temos mais de 80 anos — continua Gavrish do seu banco de vigia na praça em Mikolaiv. — Vamos evitar que o que aconteceu em Bucha aconteça aqui novamente. Nós somos pessoas; eles, animais.

Gavrish fala num ucraniano precário porque, como admitiu, a sua língua materna — como a da maioria na região — é o russo. E antes que a conversa siga adiante, seus amigos lhe pedem para parar de conversar com os estranhos: apesar dos estrondos da artilharia do outro lado do rio, o jogo de dominó tem que continuar.


Fonte: O GLOBO

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