UE planeja enfrentar alerta russo para falta de comida com 'diplomacia alimentar' no norte da África e nos Bálcãs

Putin defende que sanções do Ocidente fomentaram 'crise global de alimentos' e levaram a disparada dos preços

Porto Velho, RO — A União Europeia pretende enfrentar o aumento dos preços do trigo e dos fertilizantes e a escassez esperada nos Bálcãs, norte da África e Oriente Médio com “diplomacia alimentar” para combater o alerta da Rússia sobre o impacto de sua invasão na Ucrânia, de acordo com diplomatas e funcionários do bloco. Na semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, defendeu que as sanções do Ocidente fomentaram uma crise global de alimentos e levaram a uma disparada dos preços da energia.

Um diplomata do bloco disse, nesta terça, que a insegurança alimentar estava causando “ressentimento” em países vulneráveis dessas regiões.

— Isso representa uma ameaça potencial à influência da UE — disse o diplomata, que planeja enfrentar a crise com “diplomacia alimentar e uma batalha de narrativas”.

Os países vizinhos da União Europeia, especialmente o Egito e o Líbano, são altamente dependentes de trigo e fertilizantes da Ucrânia e da Rússia. Os dois vêm enfrentando um aumento de preços após uma queda nos suprimentos desde que Moscou invadiu a Ucrânia, no fim de fevereiro.

— Não podemos correr o risco de perder a região — acrescentou um segundo diplomata europeu.

O bloco de 27 países também quer aumentar os esforços internacionais para mitigar o impacto da escassez e, juntamente com o Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA), anunciará novas iniciativas na terça-feira.

A França, o maior produtor agrícola da UE, está promovendo uma iniciativa chamada FARM, que incluiria um mecanismo global de distribuição de alimentos para nações mais pobres. O país pretende garantir um acordo internacional sobre o programa antes do final de seus seis meses de presidência da UE, em junho, de acordo com o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian.

A Hungria, por sua vez, sugeriu que a União Europa aumentasse sua produção agrícola alterando suas metas climáticas.

Já a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) confirmou que está considerando um mecanismo de financiamento de importação de alimentos. Mas, de acordo com um documento ao qual a Reuters teve acesso, a UE acredita que a cooperação com o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, sobre a insegurança alimentar global é “desafiadora”. O bloco vem pressionando a FAO a agir rapidamente.

Em uma lista de recomendações no site da FAO, Qu alerta que os países dependentes da importação de alimentos da Rússia e da Ucrânia “devem procurar fornecedores alternativos para absorver o choque”.

Bruxelas considera as campanhas de comunicação da Rússia sobre a crise alimentar como desinformação, de acordo um diplomata do bloco, que destaca que a UE não está restringindo o comércio de alimentos com a Rússia — normalmente as sanções às exportações isentam alimentos.

— Não são as sanções que estão criando o risco de uma futura crise alimentar, é a ocupação russa da Ucrânia — disse Le Drian.

A Rússia também está dificultando o embarque de produtos agrícolas da Ucrânia ao atacar portos e bombardear armazenamentos de trigo, lembrou o diplomata chefe da UE, Josep Borrell, nesta segunda-feira, durante uma reunião de ministros de Relações Exteriores do bloco. Moscou, que restringiu as exportações de trigo, bombardeou recentemente várias instalações de armazenamento de combustível na Ucrânia.

E mesmo que as instalações ainda estejam cheias, a Ucrânia não pode exportar o alimento por causa da escassez generalizada de combustível.

O bloco europeu vem tentando facilitar as exportações de alimentos via Polônia, e está apoiando a entrega de combustível a agricultores ucranianos para aliviar a situação, de acordo com as autoridades ouvidas pelas Reuters. 

A UE também está fornecendo apoio financeiro aos países mais vulneráveis, e anunciou na semana passada 225 milhões de euros (R$ 1,4 bilhão) em ajuda ao norte da África e ao Oriente Médio. Quase metade do valor será destinado ao Egito, o maior país da região, enquanto Líbano, Jordânia, Tunísia, Marrocos e Autoridade Palestina vão receber fundos de emergência entre 15 e 25 milhões de euros cada.

Outros 300 milhões de euros (R$ 1,5 bilhão) em apoio à agricultura devem ser fornecidos aos países dos Bálcãs, como parte do financiamento regular da UE para a região.


Fonte: O GLOBO

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