Flamengo repete roteiro de crise, mas decisões sobre técnico e elenco se mantêm sob o mesmo comando

Braz e Spindel são os responsáveis por renovações questionadas, formação de elenco desequilibrado e escolha de técnicos nos últimos anos. Clube não tem estrutura profissional de ponta

Porto Velho, RO
- O Flamengo não chega à Libertadores com a crise transbordando outra vez em função unicamente do mau desempenho no Carioca. 

Há uma sucessão de problemas que passam pela formatação do departamento de futebol antes de chegar ao técnico Paulo Sousa e à baixa aceitação do trabalho do português por parte dos atletas, que hoje enfrentam o Sporting Cristal na estreia da equipe na competição, às 21h30 (de Brasília), em Lima.

As decisões sobre chegadas e saídas de jogadores e treinadores passam desde o início da gestão do presidente Rodolfo Landim nas mãos da dupla que comanda o futebol: o vice Marcos Braz e o diretor Bruno Spindel. 

Há dois anos, com o fim da era Jorge Jesus, a lógica se repete – e o roteiro de crises também. Os dirigentes viajam para contratar e ainda não conseguiram emplacar um trabalho de longo prazo. As críticas sobre Braz e Spindel passam pela incapacidade de avaliar técnicos e atletas.
  Braz e Spindel são alvos além de Paulo Sousa Foto: Divulgação

Scout e gerentes defasados

Desta vez, a dupla passou a responsabilidade de avaliação do grupo a Paulo Sousa, quarto técnico contratado por eles em dois anos. Após Domènec Torrent, Rogério Ceni e Renato Gaúcho, o português veio com a meta de reformulação.

Mas antes de chegar, teve essa missão dificultada pela própria diretoria, que renovou com os veteranos Diego Alves, Filipe Luís e Diego Ribas no fim de 2021. O trio da chamada geração 85 ainda tem bastante ascendência sobre o grupo, que hoje é mais dividido.

Segundo apurou o GLOBO, Braz e Spindel não conseguem mais interferir diretamente na dinâmica do elenco. Em meio ao desgaste, eles têm trazido novas peças, em um planejamento atropelado. Há algumas oportunidades de mercado, outras indicações do técnico. As contratações, porém, não tornam o elenco equilibrado o suficiente para a reformulação desejada.

Neste cenário, há críticas também para a estrutura profissional responsável por avaliar o mercado. É pequena integração do comando do futebol com o scout do clube, considerado defasado em relação a outras equipes brasileiras. 

A ascensão dos gerentes Fabinho e Juan junto ao elenco, por sua vez, aconteceu mais como uma forma de blindar o comando do futebol e os medalhões de críticas também internas no Flamengo. A dupla tem bastante ingerência sobre o grupo, mas não a força suficiente para ajudar num processo de reformulação. Até pela falta de opções.

Sem reposição

Ou seja, se Paulo Sousa precisa afastar alguns medalhões, não há jogadores de peso para substituir. Assim, nomes como Hugo, Lázaro e João Gomes sofrem para se consolidar na equipe. Só agora a diretoria trouxe o experiente goleiro Santos para ficar imune à presença de Diego Alves.

No meio-campo, nenhum volante chegou para assumir as rédeas do time como Gerson fazia. Andreas Pereira caiu em desgraça desde a final da Libertadores e tem a compra questionada. Thiago Maia, outra aquisição a pedido do treinador, joga pouco. Arão, quase intocável, só saiu do time na final do Carioca.

Na zaga, Filipe Luís acabou como solução após ter contrato renovado, pois na ala esquerda não rende o esperado. Mesmo assim, o Flamengo contratou dois zagueiros - Fabrício Bruno, opção da diretoria, e Pablo, pedido do técnico.

Vieram também Marinho, que Paulo Sousa não queria, e o lateral Ayrton Lucas, oferecido pelo empresário Carlos Leite. Emprestado pelo Spartak da Rússia, o jogador chegou lesionado. Também não há reposição no caso da perda de Arrascaeta, convocado ou lesionado. 

As duas situações ocorreram esta semana e não há jogador à altura para substituí-lo. Vitinho, que teve lampejos entre a temporada anterior e a atual, não é solução em jogos grandes. Mas tem a renovação discutida.

Além dele, Rodinei também possui contrato até o fim de 2022, e a diretoria do Flamengo entende que são permanências importantes para o elenco. Não necessariamente para serem titulares. A avaliação passa pelo técnico, que deu aval diante da falta de alternativas.

Isla é outro que perdeu espaço com Paulo Sousa e deve deixar o clube até dezembro. Saiu do time para ver Matheuzinho e Rodinei alternarem atuações questionáveis, e nunca teve uma sequência. Renê, com poucas oportunidades, é outro em fim de contrato com os dias contados. 

Enquanto isso, o clube emprestou o jovem Ramon ao Bragantino, depois de alguns embates com o técnico.

Reservas de luxo sem mercado

Com salários elevados, a maioria dos jogadores em baixa não conseguiria receber o mesmo de clubes brasileiros, e a oferta de mercado internacional é baixa neste momento. A esperança é a janela do meio do ano. 

Exemplo claro é Everton Ribeiro, que renovou ao fim de 2019, foi para a seleção brasileira, teve ofertas milionárias recusadas, mas desde o ano passado vive uma fase técnica e física ruim. O meia, barrado em vários jogos, tem contrato até o fim de 2023. O mesmo prazo do zagueiro Gustavo Henrique, reserva de luxo, e de Rodrigo Caio, que vive constantemente machucado.

Léo Pereira talvez seja o caso mais emblemático de escolha que não deu certo e não tem perspectiva de saída. Chegou após a venda de Pablo Mari, em 2020, assinou até 2024, e jamais viveu bons momentos. Teve oportunidades com os últimos treinadores, especialmente Ceni e Renato, e com Paulo Sousa quando entrou errou tudo. Mais uma peça que não tem encaixe no mercado fácil.

E o ciclo vicioso se repete. Diante do desempenho ruim, Braz e Spindel voltam atenções ao mercado, tentam buscar soluções de curto prazo, e se veem envolvidos em um processo de fritura do treinador que pode culminar com mais uma troca do comando. E manter seus cargos a salvo.


Fonte: O GLOBO

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