Biden chega à Europa e pressiona aliados por mais sanções, mas UE hesita; Otan anuncia ajuda à Ucrânia e reforço no Leste

Governos, como o da Alemanha, rejeitam inclusão do setor de energia em novos pacotes, no que pode ser uma fissura na aliança; Moscou volta a alertar para 'linhas vermelhas' diante de movimentação da aliança
Porto Velho, RO — Na véspera da invasão da Ucrânia completar um mês, o presidente americano, Joe Biden, chegou nesta quarta-feira à Bélgica para uma série de reuniões com parceiros internacionais, em busca de coesão para apertar o cerco contra a Rússia. 

Mas ainda não é certo até onde os governos europeus estão dispostos a ir e se poderão aceitar mexer em um setor vital para o continente: o da energia.

Ao todo, Biden deve participar de três reuniões de líderes em Bruxelas: da Otan, da União Europeia e do G-7, o grupo formado por sete das mais desenvolvidas economias do planeta.

Ali, o presidente americano deverá fazer uma defesa da união que essas nações vêm demonstrando desde o início da invasão russa, através de uma política que alia a aplicação de sanções, a defesa dos flancos orientais da aliança e do envio de equipamento militar — majoritariamente defensivo — para Kiev.

Antes da chegada do presidente à Bélgica, o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, confirmou que, já nesta quinta-feira, ele anunciará novas sanções contra "figuras públicas, oligarcas e entidades", sem sinalizar quem estaria na mira. 

As medidas, conforme informaram funcionários da Casa Branca, devem ser tomadas em conjunto com nações aliadas.

Sullivan disse que vai apertar as ações já existentes, que incluem o congelamento de bens nos EUA, além da proibição da entrada no país dos citados e de parentes próximos. Em seguida, o presidente americano vai à Polônia, país que vem recebendo a maior quantidade de refugiados da Ucrânia.

Os impactos econômicos das sanções já são sentidos pela sociedade e pelo governo russo, com o agravamento da crise econômica, colocando lado a lado uma alta da inflação, a desvalorização do rublo e a dificuldade em buscar financiamento no exterior. 

Bilionários tiveram bens tomados em diversos países e agora buscam portos mais seguros para seus iates e fortunas. Em vez de crescer os previstos 2,4%, análises preliminares esperam retração de até 9% do PIB russo em 2022.

Contudo, o principal objetivo das medidas ainda parece longe de ser atingido: frear a campanha militar russa na Ucrânia. Apesar dos diversos problemas logísticos no front, com um número acima do normal de baixas, rendições e perdas de equipamentos, as tropas de Putin seguem seus ataques contra forças ucranianas e a população, levando a situações extremas, como os cercos a Mariupol e Kharkiv.

Com isso, os líderes se verão, nesta quinta-feira, diante de duas questões diretas: a aplicação de novas medidas e quais setores serão atingidos dessa vez. A resposta não é simples e pode marcar um ponto de divergência.

— Há um alto grau de coordenação e um extraordinário grau de sucesso ao produzir uma série de sanções muito intensas — disse ao Politico Ian Lesser, vice-presidente do Fundo Marshall Alemão e especialista em temas da Otan. 

— Mas isso também traz seu próprio desafio, que é manter a coordenação no que pode ser um prolongado enfrentamento com a Rússia.
Energia na mira?

Desde o início do conflito, analistas políticos e líderes de alguns governos ocidentais vêm defendendo punições contra o setor de energia da Rússia. Antes da invasão, o governo dos EUA vinha pressionando a Europa para reduzir sua dependência do gás, do carvão e do petróleo vindos dos campos russos, mas sem apresentar opções viáveis.

Na terça-feira, Sullivan chegou a dizer que a Casa Branca “busca anunciar uma ação conjunta para ampliar a segurança energética da Europa e reduzir a dependência do gás russo”, sem dar detalhes.

Mesmo dentro do bloco, países como a Irlanda e nações do Leste, como a Polônia, querem um embargo ao petróleo e a elevação das tarifas relacionadas ao comércio no setor de energia.

— Isso é claramente uma área na qual, se queremos que as sanções tenham efeito, devemos nos centrar — disse esta semana o chanceler irlandês, Simon Coveney, citado pela Bloomberg.

Por outro lado, países como a Alemanha, maior consumidora de insumos energéticos da Rússia, rejeitam que o setor esteja presente na próxima rodada de sanções. Para Berlim, o importante agora não é anunciar novas medidas, mas sim garantir que as punições atuais sejam cumpridas, e que eventuais brechas sejam fechadas.

— Sobre as sanções, estamos trabalhando de forma constante para que sejam mais precisas – disse a jornalistas o porta-voz do governo alemão, Steffen Hebestreit, citado pela Bloomberg. — Mas não haverá um novo pacote, pelo que eu saiba.

Na mesma linha, a Hungria afirmou que atingir o setor de energia, neste momento, seria uma “linha vermelha”. Os dois concordam, contudo, que essa alternativa deve ser acionada no caso de movimentos mais graves por parte da Rússia, como o uso de armas químicas ou biológicas. 

Há ainda especialistas que sugerem ações contra a exportação de alguns tipos de metais pela Rússia, mas há o temor de que tais medidas provoquem mais danos aos europeus (e ao resto do mundo) do que a Moscou.

Reforço no Leste

Pelo lado militar, a presença de Biden em solo europeu coincide com o anúncio da Otan de um reforço nos contingentes da aliança em seu flanco Oriental, algo que precisará ser aprovado pelos líderes na reunião desta quinta-feira.

— Espero que todos os líderes estejam de acordo com o fortalecimento da aliança em todos seus domínios. 

O primeiro passo é o envio de quatro novos grupos de combate à Bulgária, Hungria, Romênia e Eslováquia — afirmou, na véspera do encontro, o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg.

Ele sinalizou ainda que devem ser discutidos modelos de apoio “para outros associados que enfrentam risco da pressão russa, incluindo a Geórgia e a Bósnia” e prometeu intensificar o apoio à Ucrânia — dentro do possível.

Até o momento, países da aliança vêm oferecendo equipamentos militares para ajudar as forças ucranianas a repelirem os ataques russos — os EUA, por exemplo, se comprometeram com o envio de mais de US$ 1 bilhão em ajuda, incluindo na forma de mísseis antitanque Javelin, uma arma que, para especialistas, vem fazendo a diferença no front.

Nesta quarta-feira, o Reino Unido, um dos membros fundadores da aliança, anunciou que entregará mais 6 mil mísseis à Ucrânia, duplicando assim o fornecimento de armas defensivas que enviou ao país desde a invasão russa.

Outras iniciativas, como o fornecimento de aviões de combate, ou a criação de uma zona de exclusão aérea, como quer o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, permanecem fora de questão, ao menos por enquanto. Stoltenberg disse que o cenário pode mudar caso a Rússia decida usar armas de destruição em massa — antes de deixar os EUA, Joe Biden afirmou a repórteres que “é real” a ameaça de ataques russos com armas químicas.

Também nesta quarta-feira, o chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou que o envio de forças da Otan à Ucrânia levaria a um confronto direto entre a Rússia e a aliança.

— Espero que eles saibam do que estão falando. Esse será um confronto direto entre as forças armadas dos dois lados, que todos querem evitar, e que dissemos que não deverá ocorrer em princípio — disse Lavrov, em palestra a estudantes, citado pela RIA Novosti.

O diplomata também afirmou que o Ocidente deve se lembrar que a Rússia possui seus próprios cálculos de segurança, e que não deve ultrapassar as chamadas “linhas vermelhas”, frequentemente mencionadas pelo Kremlin e relacionadas à expansão da Otan rumo às fronteiras russas.


Fonte: O GLOBO

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