Usina de Zaporíjia: CEO russo diz que desastre nuclear mudará 'o curso da História para sempre'

Países trocam acusações sobre autoria de ataque no domingo, o mais recente de uma série de atritos nos arredores do maior complexo nuclear da Europa

Porto Velho, RO
- O CEO da estatal russa Rosatom, especializada em energia nuclear, afirmou nesta segunda-feira que a usina ucraniana de Zaporíjia, ocupada pelas forças de Vladimir Putin, pode protagonizar em breve um desastre que "irá mudar o curso da História para sempre". Alexey Likhachev, que comanda a empresa, culpou o Exército ucraniano pelas explosões que atingiram a estrutura no último domingo, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Há dois dias, os dois países em guerra têm trocado acusações quanto à autoria do ataque, que não alterou os níveis de radiação no local.

Zaporíjia é a maior usina nuclear da Europa, e está situada em um dos quatro territórios da Ucrânia que Putin anexou unilateralmente à Rússia após contestados referendos em setembro, sem reconhecimento da comunidade internacional. O potencial de danos pode levar a uma tragédia maior que a de Chernobyl, de 1986.

— Estamos informando à comunidade internacional que a usina corre o risco de um desastre nuclear. E Kiev acredita claramente que um pequeno incidente nuclear seria aceitável. No entanto, a radiação não perguntará que tipo de incidente Kiev quer — afirmou Likhachev em Sóchi, na costa do Mar Negro, durante o AtomExpo (fórum do setor nuclear do qual é anfitrião junto com a Rosatom).

O CEO da estatal também declarou que os russos manifestaram preocupações à AIEA quanto às explosões recentes e que a organização, ligada à ONU, transmitiu o recado a outros países europeus. Ele cobrou reações de líderes dessas nações, dizendo que eles deveriam "controlar melhor" os políticos de Kiev que parecem acreditar que um acidente nuclear serviria aos interesses deles — uma referência ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

— (Um desastre nuclear) Será um precedente que mudará o curso da História para sempre. Portanto, todo o possível deve ser feito para garantir que ninguém possa sequer pensar em minar a segurança das usinas nucleares — complementou Likhachev.

Ainda segundo o comandante da Rosatom, a companhia estaria em um processo amigável para assinar contratos de trabalho com a equipe de Zaporíjia. O maior complexo nuclear europeu foi ocupado pelos russos em 4 de março e, mesmo sob comando do Kremlin, vinha sendo operado por funcionários ucranianos.

Há um mês, no entanto, a AIEA afirmou publicamente que havia "pressão inaceitável" da Rússia sobre os funcionários para fechar esses acordos. Os engenheiros, segundo Kiev, trabalham em regime de “semiliberdade”.

Likachev, porém, sustentou que os profissionais seriam como "membros da família" para a Rússia — uma menção indireta à origem das ogivas durante a União Soviética.

Em suas declarações, Likachev lembrou que a Rússia espera uma sinalização dos Estados Unidos quanto à criação de uma zona segura desmilitarizada em torno de Zaporíjia. A proposta partiu de Washington em agosto, enunciada por um porta-voz do Departamento de Estado, mas não progrediu e agora, segundo o CEO da Rosatom, estaria "congelada" sem novos movimentos dos americanos.

Ao dizer que aguarda uma posição dos EUA, Likachev elevou o tom de vaticínio:

— Radioatividade não reconhece nacionalidades. Nem fronteiras — disse o CEO.


Fonte: O GLOBO

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