Enel vai vender operação no Ceará e deixar Peru e Argentina em 2023

Grupo italiano prevê € 37 bilhões em investimento até 2025 e zerar emissões de carbono em 2040, dez anos antes do previsto anteriormente

Porto Velho, RO -
A Enel vai vender sua distribuidora de energia no Ceará no próximo ano, priorizando esse mercado em megacentros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo. A decisão integra o plano de negócios da companhia para 2023 a 2025, divulgado no início da manhã desta terça-feira em apresentação para investidores em Milão, com transmissão on-line.

— Vamos seguir o reposicionamento estratégico deste ano, nos desfazendo de ativos e deixando de atuar em regiões que não estão mais alinhadas com o propósito da companhia. Assim, em 2023, venderemos ativos como de geração a gás, inlcuindo Ceará, no Brasil. E vamos sair de Romênia, Peru e Argentina — disse Francesco Starace, CEO da Enel.

O esforço em deixar as operações ligadas a combustíveis fósseis e focar em seis países-chaves — Itália, Espanha, Estados Unidos, Brasil, Chile e Colômbia — está em grande parte ancorado na transição energética da companhia, que antecipou em dez anos, de 2050 para 2040, a meta de zerar suas emissões de carbono.

Ao todo, o novo plano prevê € 37 bilhões em investimentos entre 2023 e 2025, recuando dos € 43 bilhões anunciados no último ano e previstos até 2024.

Já o endividamento líquido subiu 34,2%, para € 69,7 bilhões. Na divulgação de resultados, a companhia justificou esse salto em grande parte por despesas com compra e venda de ativos, incluindo a aquisição da italiana ERG Hydro.

De janeiro a setembro deste ano, a Enel registrou lucro de € 1,76 bilhão, quase 30% menos que nos primeiros nove meses de 2021.

Desinvestimento

Este ano, a companhia vendeu sua operação na Rússia. No Brasil, fechou em meados do ano a venda da termelétrica de Fortaleza para a Eneva. Há ainda outras duas transações em processo de finalização até o fim deste ano, uma delas é a venda da Enel Distribuidora de Goiás, adquirida pela Equatorial Energia em setembro, e a dos ativos de transmissão no Chile.

A Enel Ceará atende quase 4,4 milhões de unidades consumidoras em 184 municípios do estado, figurando entre as grandes distribuidoras de energia do Nordeste.

Starace reforçou que os investimento seguem sendo feitos no Brasil:

— Investimos onde estão os maiores retornos, tanto em geração quanto em rede. O Brasil é um continente. E queremos focar nossas capacidades nas grandes áreas metropolitanas, sobretudo Rio e São Paulo — disse ele. — Temos um enorme cronograma de projetos no país, que precisa adicionar geração além da hidrelétrica, com mais eólica e solar, para garantir a segurança do sistema.

Dos € 37 bilhões previstos em investimentos, € 5,41 bilhões serão direcionados à América Latina. O montante por país não foi fornecido.

A saída de Argentina, Peru e Romênia foi explicada em razão de não haver mais espaço para crescimento nesses mercados. Com isso, a opção é por vender e fazer dinheiro com essas operações e apostar em regiões onde há potencial de expansão.

Redução de dívida e aumento de resultado

O rearranjo na geografia operacional e na rede de ativos da companhia rumo a uma estrutura simplificada deve contribuir para uma redução de € 21 bilhões na dívida líquida da companhia.

Em paralelo, a previsão é de que o Ebitda, indicador de caixa, avance de € 19 bilhões a € 19,6 bilhões estimados para este ano para € 22,2 bilhões a € 22,8 bilhões em 2025, enquanto a receita líquida avançaria de 5 bilhões a 5,3 bilhões para 7 bilhões a 7,2 bilhões nesse mesmo período.

Alberto de Paoli, diretor executivo de Finanças da Enel, explicou que, ao reforçar a estrutura de caixa, de receita e reduzir o endividamento, a empresa tem um "guarda-chuva" maior para se proteger. Se o preço do gás sobe, a Enel tem capacidade de compensar.

O cenário dos últimos três anos, combinando os efeitos da pandemia da Covid-19, efitos de mudanças climáticas e, obviamente, o conflito na Ucrânia, pressionou pela aceleração da transição energética e a digitalização, em paralelo a um ajuste na cadeia global de fornecimento de energia, explica a Enel.

Starace considera que, a despeito das diversidades em meio aos efeitos da guerra da Ucrânia para o mercado de energia, sobretudo na Europa, a companhia demonstra resiliência.

— Nesses três anos, vamos focar em modelos de negócios integrados, know-how digital e negócios e regiões que possam adicionar valor (para a companhia). Com demanda volátil, turbulência nos preços do gás, intervenção dos governos e alta da taxa de juros, decidimos focar em prioridades e ter uma visão mais conservadora — pontuou Starace.

Para o executivo, esse movimento vai ampliar a resiliência da companhia e prepará-la para enfrentar turbulências futuras, avaliando que a atual se estenderá por ao menos mais dois anos. Ele citou ainda o impacto dos pacotes anunciados principalmente pelos governos europeus e americano.

E confirmou que a Enel negocia a construção de uma usina solar e fábrica de painéis fotovoltaicos nos Estados Unidos. Será uma réplica da planta que a companhia mantém na Sicília, na Itália.

Daí o foco em geração de energia a partir de fontes sustentáveis, que deve crescer de 59 GW para 75 GW em três anos, o equivalente a subir de 67% para 79% do total.

A meta é passar de 70% da venda de energia vinda de fontes limpas, hoje, para 90%, em 2025.

Está prevista ainda a adição de 21 GW em capacidade instalada de geração de fontes renováveis, sendo que 19 GW deste total estarão concentradas nos países-chave.

Gabriel Meira, especialista da Valor Investimentos, diz que a decisão da Enel para o Brasil não pega o mercado de surpresa:

— Faz sentido ajustar o portfólio e se concentrar nos mercados onde gera mais receita, que aqui são Rio e São Paulo, ao invés de uma operação mais marginal no Nordeste. A venda da distribuidora no Ceará vai depender do valor que definirem para o ativo. Acredito que a Equatorial, com forte e competente operação nessa região do país seria uma candidata a levar a operação.

O pacote de desinvestimento anunciado pela gigante italiana faz sentido, complementa Meira, ponderando que, no atual cenário de crise de energia, efeitos de pandemia e guerra da Ucrânia, o custo de operação das empresas do setor cresceu, enquanto as margens ficam sacrificadas porque os governos pressionam por manutenção de preços.


Fonte: O GLOBO

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