'Porta-voz' da esquerda, Fernández leva a cúpula nos EUA proposta de diálogo sem exclusão de países

Presidente argentino vai levar a Los Angeles queixas de países como México e Bolívia, que atacaram decisão de Joe Biden de não convidar Venezuela, Cuba e Nicarágua

Porto Velho, RO - Na ausência do presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, que não cedeu às pressões do governo de Joe Biden e manteve firme sua decisão de não participar da IX Cúpula das Américas, que começa nesta quarta-feira, em Los Angeles, seu par e aliado da Argentina, Alberto Fernández, tornou-se uma espécie de representante e porta-voz dos governos de esquerda e progressistas da região.

Como presidente pro tempore da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac, grupo do qual o Brasil se retirou em março de 2020), o chefe de Estado argentino, confirmaram fontes da Casa Rosada, “apresentará na cúpula uma proposta de diálogo sem exclusões” entre os países do continente. Os excluídos do encontro, por decisão da Casa Branca, foram Cuba, Venezuela e Nicarágua.

O presidente argentino pensou seriamente em seguir os passos de López Obrador e não aceitar o convite de Biden. A razão central seria a mesma: a exclusão dos três países que os EUA não convidaram por não serem considerados democráticos. 

Mas, após conversar com seu amigo e aliado mexicano, Fernández chegou à conclusão, confirmaram fontes argentinas, de que um boicote dessa magnitude ao encontro promovido por Biden desgastaria demais a imagem do presidente americano e terminaria fortalecendo a de seu principal adversário político, o ex-presidente Donald Trump.

Em palavras de uma fonte do governo argentino, Fernández estará na cúpula para falar sobre questões como “as consequências da guerra na Ucrânia na região, e a necessidade de termos uma América Latina unida e sem exclusões, promovendo uma agenda positiva de desenvolvimento econômico para todos nossos povos”.

— A Argentina vai participar da reunião para deixar clara sua posição — frisou a fonte.

A visão que Argentina e México compartilham é de que as desigualdades sociais que assolam a região não podem ser combatidas num cenário de nova Guerra Fria. Fernández e López Obrador defendem a necessidade de iniciar uma nova etapa de diálogo, incluindo todos os países do continente. Na segunda-feira passada, o presidente argentino questionou, mais uma vez, o bloqueio econômico à Cuba:

— A verdade é que, em meio a uma pandemia, manter os bloqueios é a coisa menos humanitária que existe.

O papel que será desempenhado por Fernández — fruto de uma negociação com o presidente do México — foi elogiado publicamente pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

— Sabemos que sua voz, firme, clara e valente será uma das vozes mais poderosas para questionar a exclusão e a tentativa de divisão da América Latina e do Caribe, com esta política errática do governo dos EUA — declarou Maduro.

Encontros

No âmbito da cúpula, o presidente argentino terá encontros bilaterais com os governantes de Chile, Peru, Canadá e EUA. Já o presidente Jair Bolsonaro tem confirmado apenas um encontro com o presidente Biden. O governo do Suriname, segundo confirmou ao GLOBO seu presidente, Chan Santokhi, tem interesse numa reunião com Bolsonaro, mas o governo brasileiro não confirmou.

O chileno Gabriel Boric disse a jornalistas de seu país que poderia conversar com Bolsonaro no âmbito da cúpula, mas, por enquanto, são apenas especulações. O governo brasileiro ainda não confirmou as credenciais do embaixador escolhido por Boric para representar seu país em Brasília.

Se, por parte dos argentinos, a intenção é provocar debate e desafiar o governo americano na cúpula, o Brasil chega a Los Angeles com uma atitude “construtiva” e a intenção de “tratar temas importantes para toda a região, entre eles crescimento, pobreza, desigualdade e investimentos”, explicou o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, secretário das Américas do Itamaraty.

— O Brasil estará em todos os documentos sobre democracia, direitos humanos. Buscamos que, em todos os casos, fosse refletida nossa visão e a da região — afirmou.

Na visão do secretário, mesmo que alguns presidentes tenham decidido não estar presentes, “podemos trabalhar como região”.

— O Brasil respeita os critérios do anfitrião — enfatizou o embaixador, deixando bem clara a posição do Brasil sobre os excluídos da cúpula.

O Brasil não compartilha, disse ele, a visão de que a região e seus processos de integração estão em crise.

— Em alguns casos, se dá ênfase em questões políticas. Pensar que só existe integração quando estamos todos é uma visão reducionista da realidade — disse o embaixador, que evitou opinar diretamente sobre as articulações entre Argentina e México e, especificamente, sobre a atitude do governo argentino em relação à cúpula.

Para o Brasil, toda a agenda da cúpula é vista como importante — de democracia, direitos e agricultura a novas tecnologias e comércio. Existe, ainda, a expectativa, por parte do Itamaraty, de que o encontro bilateral entre Bolsonaro e Biden — na quinta ou na sexta-feira — consolide a construção de uma boa relação, que vem sendo feito pela ala diplomática do governo.

Após o presidente brasileiro ter sido um dos últimos a reconhecer a vitória de Biden , em 2020, foi feito um trabalho minucioso para recompor a relação. Mas faltava um encontro presencial entre os dois. Bolsonaro, no entanto, só deve chegar a Los Angeles na quinta-feira, e perderá o primeiro evento de Biden com os líderes convidados nesta quarta.

Argentina e Brasil chegam com posições, visões e propostas muito diferentes a uma cúpula que reflete o clima de divisão que predomina entre nações latino-americanas, sem uma política clara e contundente de união e liderança por parte dos EUA de Biden.


Fonte: O GLOBO

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