Petro vence na Colômbia e disputará segundo turno com populista de direita

Pela primeira vez, partidos tradicionais estarão fora do segundo turno; esquerdista ataca atual presidente em discurso de vitória: 'Resultados mostram que projeto político de Iván Duque foi derrotado'

Porto Velho, RO -
Com praticamente 100% das urnas apuradas na Colômbia, o país deu uma guinada neste domingo nas urnas, levando o ex-guerrilheiro e esquerdista Gustavo Petro e o populista de direita Rodolfo Hernández a disputarem o segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 19 de junho. 

Com um discurso antissistema, o empresário e ex-prefeito, de 77 anos, foi a grande surpresa, desbancando o candidato da centro-direita Federico Gutiérrez como adversário da esquerda, em um resultado que deixou, pela primeira vez, os partidos tradicionais do país fora do segundo turno.

A ida de Hernández para o segundo turno é o pior cenário para Petro, favorito e ex-prefeito de Bogotá, que esperava disputar com Gutiérrez. No novo cenário, o populista poderia atrair votos de todos os demais candidatos, incluindo de eleitores que rejeitam Petro por seu passado guerrilheiro, mas são contra o sistema atual.

Petro, que depôs as armas em 1990, após a desmobilização do M-19, grupo rebelde nacionalista do qual foi membro por 12 anos, votou pela manhã, em um bairro popular de Bogotá.

Com 40,3% dos votos, ele comemorou a vitória com um discurso a apoiadores duas horas depois dos primeiros resultados.

— O que se disputa hoje é a mudança. Os resultados mostram que o projeto político do presidente Iván Duque foi derrotado. Mandamos uma mensagem ao mundo: hoje se acaba uma era na Colômbia. E agora é a hora de construir um futuro. A partir de hoje decidimos que mudança queremos: nos suicidarmos ou avançarmos? — disse o candidato.

Hernández conseguiu 28,20% dos votos, quase cinco pontos percentuais a mais que o ex-prefeito de Medellín Federico Gutiérrez, que obteve 23,80 % e era considerado favorito para disputar o segundo turno. O pleito é considerado por analistas um dos mais importantes dos últimos 30 anos. 

Atrás de Gutiérrez em quarto lugar, ficou o centrista Sergio Fajardo, que tinha a preferência do eleitorado mais urbano e fracassou em sua tentativa de consolidar-se como uma terceira via. Ele obteve apenas 4,2% dos votos.

Embalado pela sua ascensão vertiginosa de quase 20 pontos percentuais em apenas algumas semanas, Hernández se pronunciou logo após conhecer o resultado.

— Fizemos uma campanha histórica, na qual o povo colombiano esteve na vanguarda desta epopeia democrática. Conseguimos um resultado histórico, um resultado que abalou as bases do poder corrupto de todos os governos recentes — disse Hernández após conhecer os resultados. 

— Não sou ingênuo sobre a resistência que haverá contra o governo determinado a acabar com a politicagem e a corrupção, especialmente por alguns que se sentiram donos deste país. Mas estou ciente de que será o povo colombiano (...) que construirá a vitória no segundo turno.

Nas últimas semanas, Hernández disparou nas pesquisas, chegando, em algumas sondagens a empatar com Gutiérrez. O engenheiro e empresário concorre como candidato independente e ficou conhecido por seus vídeos excêntricos nas redes sociais, em que aparece cantando e andando de skate, além do forte discurso contra a corrupção. Neste domingo, o candidato publicou um vídeo em que aguardava os resultados em traje de banho e bebendo cerveja no pátio de sua mansão.

Mas apesar do discurso, o empresário enfrenta uma investigação por supostamente ter intervindo, quando era prefeito, na contratação de uma empresa de uma gestão de lixo que beneficiaria um de seus filhos. Ele nega as acusações.

Em seu discurso, Petro citou o caso e criticou o opositor:

— A corrupção não se combate com frases de efeito no Tik Tok — afirmou.

Já Gutiérrez, ex-prefeito de Medellín, era a grande esperança da direita na cruzada para impedir que a esquerda chegue pela primeira vez ao poder. Aos 47 anos, o candidato tinha o apoio de partidos tradicionais, entre eles o Partido Liberal, da grande maioria dos empresários e de eleitores mais conservadores.

Na noite deste domingo, Gutiérrez anunciou que apoiará Hernández no segundo turno.

— Não vamos pôr em risco o futuro da Colômbia, nossas famílias e nossos filhos — disse, afirmando, no entanto, que manterá uma "posição de supervisão".

O resultado indica ainda uma forte rejeição aos partidos tradicionais, representados pelos ex-presidentes Juan Manuel Santos e Álvaro Uribe, forças políticas que nas últimas duas décadas governaram o país.

Petro, grande favorito, disputa pela terceira vez a Presidência da Colômbia. O ex-prefeito de Bogotá e ex-senador do esquerdista Pacto Histórico, de 62 anos, está em campanha desde que perdeu o segundo turno das presidenciais de 2018 contra o atual presidente, Iván Duque.

Seus opositores questionam seu passado guerrilheiro e sua antiga amizade e aliança com o chavismo. Suas propostas estão centradas numa forte mudança do sistema econômico, incluindo uma reforma agrária, renegociação de tratados de livre comércio, aposta em uma economia verde (mudança de matriz energética) e legalização das drogas, entre outras iniciativas.

A chuva ofuscou o início do dia em Bogotá e os eleitores foram aos centros de votação fortemente vigiados por cerca de 300 mil militares e policiais. A abstenção, que em geral gira em torno de 50%, ficou em 46%, apenas um ponto percentual menor do que nas eleições anteriores, em 2018.


Fonte: O GLOBO

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