'O amor das mães não é perfeito e incondicional', diz colombina Pilar Quintana, apontada como nova García Márquez

Em entrevista, escritora fala sobre eleições em seu país, que pode levar a esquerda pela primeira vez ao poder, e sobre o romance que lança no Brasil, uma reflexão sobre maternidade

Porto Velho, RO - Já nas primeiras páginas de seu novo romance, “Os abismos”, a escritora colombiana Pilar Quintana abre as portas de um debate que considera fundamental para finalmente começar a derrubar tabus sobre as mulheres e a maternidade. 

A pequena Claudia pergunta à sua mãe, que tem o mesmo nome, se gostaria de ter tido mais filhos. A resposta é quase um manifesto: “Ui, não. Me deixem em paz. Além do mais, você já maltratou o meu corpo mais do que o suficiente.”

A cena acontece no apartamento onde a família, formada por Claudia, sua mãe e seu pai, Jorge (cerca de 20 anos mais velho que sua mulher), vive na cidade de Cali, terra natal da escritora. Poderia ser perfeitamente a casa onde Pilar nasceu e cresceu, com uma mãe que, como Claudia, sacrificou uma vida profissional em nome de ter a família que a sociedade esperava que tivesse. 

Como a maioria de suas amigas e familiares que, contou a escritora em entrevista ao GLOBO, inspirou uma história que busca revelar a maternidade real, com suas dores, cansaços e raivas.

— Meu principal recado para as mulheres é que elas não precisam ser perfeitas, essa é a maior liberação — afirma Pilar.

A escritora teve seu único filho, hoje de 7 anos, aos 43.

— Com este livro fiz as pazes com a geração de minha mãe. Percebi que, se para mim foi difícil a maternidade, para essas mulheres foi muito mais — frisa a autora, que em 2020 lançou “A cachorra”, em que conta a história de Damaris, uma mulher de vida sofrida, frustrada por não ter conseguido engravidar e que canaliza esse desejo por meio de Chirli, uma cachorra.

Prêmio Alfaguara

“Os abismos” venceu o renomado Prêmio Alfaguara 2021, e a consagrou como um dos maiores nomes contemporâneos da literatura latino-americana. Alguns a catalogam como a nova García Márquez, mas Pilar, embora se reconheça vaidosa, assegura que trabalha para que essas comparações não afetem a sua escrita e as histórias que quer contar.


A escritora colombiana Pilar Quintana, autora de Os Abismos — Foto: Divulgação

Numa América Latina na qual os movimentos feministas se fortaleceram nos últimos tempos, mas onde ainda têm enorme influência setores conservadores, machistas e misóginos, Pilar busca ser uma voz poderosa que represente as mulheres de várias gerações. Uma voz que questione imagens idealizadas, como as das mães que ainda hoje aparecem em comerciais de fraldas e margarinas.

— Mostram mulheres que devem ser perfeitas, que não desejam, que não são infiéis. Que sacrificam tudo e têm um amor incondicional por seus filhos O amor das mães é realmente perfeito e incondicional? A resposta é não, é um amor imperfeito como todos os amores — afirma a escritora.

A escritora observa com otimismo as jovens gerações de mulheres latino-americanas e acredita que para elas tudo será mais fácil. Hoje ainda lamenta que o progressismo esteja forte dentro de uma bolha, sobretudo virtual, e que fora dela mulheres vulneráveis de toda a região ainda vivam em condições de submissão e com muitos menos direitos do que outras, de setores que chama de privilegiados.

— Me preocupam os governos de direita na região. Nosso país, por exemplo, acaba de assinar um tratado contra o aborto, sendo que o aborto é legal na Colômbia. Se continuarmos tendo governos de direita, perderemos muitas das lutas que já vencemos — lamenta Pilar.

Os colombianos irão às urnas no próximo domingo (29) e a esquerda nunca esteve tão perto de uma vitória. A escritora está ansiosa, na expectativa de uma mudança inédita em seu país.

Seu motor na vida é tirar máscaras, desfazer poses e contar experiências reais. Pilar é uma provocadora nata que, num país ainda profundamente conservador, desafia o status quo e sonha com um mundo no qual cada mulher possa ser quem quiser ser, sem tanto preconceito e julgamento.

No romance, através da relação de Claudia e sua mãe, que por sua vez também teve uma mãe muito pouco maternal, Pilar expõe as emoções negativas da maternidade, muitas vezes silenciadas. Expõe, até mesmo, o arrependimento que, por momentos, muitas mães sentem pelas escolhas de vida que fizeram.

— Amamos nossos filhos, mas a maternidade é dura. Algumas mulheres inclusive se arrependem — aponta a escritora, que ao escrever “Os abismos” disse ter percebido o quanto julgou sua própria mãe. — Não a via como uma mulher, apenas como mãe. E todos avaliamos as mães com parâmetros impossíveis de serem alcançados.

Infidelidade em família

A mãe de Claudia, que se casa muito jovem por forte pressão social, vive um intenso romance com o marido de sua cunhada. A infidelidade é descoberta pela filha e, posteriormente, pelo marido e por toda a família. Claudia mãe mergulha numa depressão que tenta disfarçar como rinite aos olhos de sua pequena filha, que vê sua vida ruir como um castelo de cartas.

A relação entre ambas se deteriora, e passa por momentos de profundo distanciamento e rancor por parte da pequena Claudia. Além do que vivia em sua própria casa, suas fantasias infantis são regadas a casos reais de celebridades que apareciam em revistas de fofocas que sua mãe comprava. 

Grace Kelly, Natalie Wood e Karen Carpenter surgem para aumentar a angústia de uma menina que luta entre o amor e o ódio a sua mãe. Um retrato de toda relação de mãe e filha, diz Pilar.


Os abismos, livro da colombiana Pilar Quintana — Foto: Divulgação



“Os abismos”
Autor:
Pilar Quintana. Tradução: Elisa Menezes. Editora: Intrínseca. Páginas: 272. Preço: R$ 59,90.


Fonte: O GLOBO

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