Nicaraguenses que fogem da ditadura de Ortega aprendem a nadar para cruzar rio entre México e EUA

Imigrantes se preparam em piscinas antes de encarar as águas traiçoeiras do Rio Grande, onde pelo menos dez pessoas morreram afogadas entre março e abril

Porto Velho, RO - Imigrantes se preparam em piscinas antes de encarar as águas traiçoeiras do Rio Grande, onde pelo menos dez pessoas morreram afogadas entre março e abril

Ao ver o filho andando com a água abaixo da cintura, firme, sem cambalear, Pablo Cuevas descartou a corda de 60 metros que comprara para atravessar com a família o Rio Grande, na fronteira do México com os EUA. Diante da iminente chegada de agentes mexicanos ou americanos, o homem soltou a corda, abraçou com força o neto de 5 anos e se atirou nas águas.

A travessia do Rio Grande tornou-se a melhor opção para os que se preparam para fugir do país . É por isso que a postagem do professor de natação Mario Orozco oferecendo aulas gratuitas no Facebook viralizou na Nicarágua. Ele afirma que alguns de seus amigos se afogaram no Rio Grande e isso o comoveu.

— Sou nadador profissional, conheço as técnicas para nadar em águas abertas. Então tirei folga para ensinar e evitar essas tragédias — diz ele, enfatizando que seu trabalho é humanitário e não político, sem se aprofundar em detalhes.

A cena ocorreu em 17 de abril. Felizmente, o Rio Grande — com um fluxo “traiçoeiro”, segundo os imigrantes que conseguiram atravessar para contar sobre ele — estava calmo. Melhor para esta família que fugiu da Nicarágua por causa do trabalho de Cuevas, renomado defensor dos direitos humanos no país.

Acostumado a situações tensas devido aos confrontos com a ditadura de Daniel Ortega, Cuevas escondeu o medo de pular no rio para que a mulher, a nora e o outro neto não perdessem a coragem. Todos refletiram muito durante os 40 dias que durou a viagem até o México, pela mesma estrada cheia de roubos, sequestros, extorsões, fome e morte por onde outras dezenas de milhares de nicaraguenses passaram apenas no primeiro trimestre de 2022, segundo autoridades dos EUA.

Em março, ainda em Manágua, Cuevas tomou a decisão de se unir ao êxodo sem precedentes para escapar da violência política e da precária situação econômica que a Nicarágua atravessa desde 2018, agravada em junho de 2021, quando a família Ortega intensificou a caça aos adversários e a perpetuação no poder.

— Alguém do governo me disse que era melhor eu ir embora... Então resolvemos sair.

Sem alternativas

A família Cuevas conseguiu cruzar o rio e agora está na Flórida. No entanto, entre março e abril de 2022, a notícia de nicaraguenses mortos naquelas águas chocou o país: dez vítimas foram registradas apenas pela Associação de Nicaraguenses no México, embora outras entidades estimem em 14 mortes, como a ONG Comunidade Nicaraguense no Texas.

Foram casos como o de uma menina de 4 anos arrastada pela corrente ou o afogamento de Calixto Rojas, locutor da Rádio Darío, emissora atacada pelo regime sandinista. A morte do comunicador, em Piedras Negras, foi registrada por um repórter da Fox News, à vista de agentes de fronteira dos EUA e do México, proibidos de ajudá-lo.

'Sei que é um rio perigoso'

A piscina onde Orozco leciona costuma estar lotada:

— Sei que é um rio perigoso — disse Roberto García, nicaraguense que deixou o país há algumas semanas, após ficar preso sete meses por participar dos protestos de 2018 na Nicarágua.

Ao sair da prisão, García decidiu migrar:

— Não quero nem pensar no dia em que vou atravessar o rio com minha mulher e meu filho. Isso me desestabiliza. Meu filho tem 10 anos e só penso nele, principalmente quando vejo tantos irmãos se afogando.


Fonte: O GLOBO

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