‘A proteção ambiental não será um empecilho’, diz embaixadora do Reino Unido sobre acordo comercial

Melanie Hopkins afirma que os brasileiros querem avançar na agenda verde e diz que os países que ainda mantêm relações com a Rússia, como o Brasil, devem convencer Putin a parar com a guerra na Ucrânia

Porto Velho, RO -
  Criticado pelo desmatamento na Amazônia em negociações com países europeus, o Brasil tem demonstrado que quer avançar em medidas para um crescimento verde e sustentável, segundo a avaliação da embaixadora do Reino Unido em Brasília, 

Melanie Hopkins. Bronzeada e usando bijuterias compradas na praia de Trancoso, no Sul da Bahia, onde aproveitou o feriado do Dia do Trabalhador, Hopkins afirmou seu país já fechou mais de 60 acordos comerciais desde que saiu da União Europeia, em 2016, e que os brasileiros devem trabalhar com os britânicos para preparar o terreno com esse objetivo.

Em entrevista ao GLOBO, a diplomata britânica disse que o Brasil e outros países que mantêm relações com a Rússia devem tentar convencer o presidente Vladimir Putin a acabar com a guerra e buscar uma solução diplomática. 

Segundo ela, a invasão da Ucrânia é a maior ameaça à segurança europeia desde a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil tem um papel fundamental não apenas sob o aspecto geopolítico, mas também como superpotência agrícola, para reduzir a ameaça de insegurança alimentar. Mas frisou que uma negociação só será possível quando acabarem os ataques a civis ucranianos.

Melanie Hopkins chegou ao Brasil em junho de 2021. Foi ministra conselheira, encarregada de negócios e embaixadora interina. Assumiu a chefia do posto em Brasília há cerca dois meses.

Pelas últimas declarações dadas por autoridades russas, a impressão que se tem é que o Reino Unido está entre as nações mais vulneráveis a ataques da Rússia do que outros países da Europa Ocidental. 

Qual a sua opinião sobre isso?

Nós achamos muito importante condenar, de forma robusta, essa invasão ilegal, premeditada e bárbara. E, como Reino Unido, estamos muito orgulhosos de nosso papel, da comunicação e da unidade nas nossas alianças. 

Tivemos muita unidade com os aliados do G7 (grupo formado por Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, França, Itália e Japão), os aliados europeus e os aliados da Otan. Para nós, essa invasão é a maior ameaça à segurança europeia desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Então, precisamos responder e não deixar espaço para pessoas como Vladimir Putin.

A senhora acredita que ainda há espaço para uma solução diplomática?

O Reino Unido é um país que acredita na diplomacia, em negociações e em compromissos para manter a paz. Mas esses processos não podem acontecer se não há condições para isso. Para o Reino Unido é importante que haja ações, e não somente palavras, como o fim de atrocidades contra civis e de bombardeios a hospitais e escolas. Por isso, neste momento não se pode falar em negociações.

A Rússia faz parte do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Achamos que o Brasil tem um papel geopolítico importante, porque é uma grande democracia e uma superpotência agrícola, o que também confere papel importante na segurança alimentar. Mas a segurança dos civis deve ser colocada como o ponto mais importante de qualquer negociação.

O que vocês esperam que o Brasil faça para garantir a segurança alimentar?

A insegurança alimentar é um aspecto que, para nós, como Reino Unido, um ator humanitário no mundo, nos preocupa muito. Já contribuímos bastante em fundos dedicados a países de baixa e média rendas, por causa do impacto da insegurança alimentar. Mas a pessoa que pode parar tudo isso é Vladimir Putin.

E todos os países que têm ainda relacionamento com Vladimir Putin devem dizer a ele que ele tem de parar com essa violência. E outro ponto importante para nós seria manter as cadeias de abastecimento abertas. Nesse sentido, temos espaço para colaborar ainda mais com o Brasil.

Se o Brasil é tão importante, por que não foi convidado a participar da reunião do G7? Tem algo a ver com o fato de o o governo brasileiro ser crítico às sanções econômicas contra a Rússia?

O Brasil apoiou as primeiras resoluções no Conselho de Segurança da ONU, pois foi importante condenar a violência e mandar uma mensagem clara a Putin desde o início. Nossa chefe de relações internacionais, Liz Truss, falou várias vezes sobre a importância para o Reino Unido de ter alianças com todas as grandes democracias e também com parceiros econômicos. E queremos fazer ainda mais alianças com o Brasil no futuro.

Seu país tem buscado muitos acordos comerciais, desde a saída da União Europeia (Brexit), há seis anos?

O Reino Unido já concluiu mais de 60 acordos de livre comércio, desde que foi finalizado o Brexit. É um tempo bem curto, mas mostra o quanto há de vontade política e que podemos avançar muito comercialmente em pouco tempo. 

Na semana passada, nosso primeiro-ministro estava de novo na Índia, onde avançamos de forma rápida em um acordo de livre comércio. E isso poderia acontecer com o Brasil, com o qual estamos negociando um pacote de atividades de cooperação econômica em áreas como crescimento limpo e ciências.

Por que com o Brasil essa negociação é mais demorada?

Temos uma relação de longa data, muito complexa e intensa com a Índia e, após nossa saída da União Europeia, aproveitamos a oportunidade de fazer mais com os indianos. E é exatamente o que queremos fazer com o Brasil. 

Começamos dando mais facilidades para as nossas instituições se conhecerem e identificarem onde estão os pontos em comum e ajudar a criar condições para acelerar, quando chegar o momento de fazer um acordo de livre comércio. 

Com certeza, o Reino Unido gostaria de fazer um acordo de livre comércio com o Mercosul, mas antes de chegarmos a esse momento, precisamos preparar o terreno.

A questão ambiental é um obstáculo para um acordo comercial com o Reino Unido?

É importante ressaltar que, para o Reino Unido, o movimento econômico não tem de ficar à mercê do desenvolvimento sustentável e da proteção ambiental. Podemos fazer as duas coisas juntas. Queremos compartilhar com o Brasil nossa experiência. 

Com certeza, o Brasil tem dimensões bem diferentes das condições do Reino Unido, mas temos muitas coisas em comum e podemos trabalhar juntos na área de crescimento limpo. Como eu disse antes, o Brasil é uma superpotência agrícola e a estratégia brasileira de agricultura de baixo carbono o torna líder no mundo. 

A proteção ambiental não será um empecilho, porque sabemos que no Brasil há também uma grande vontade de avançar.

Por que os europeus ameaçam colocar barreiras no comércio com o Brasil?

A economia mundial está mudando, não só a europeia, e consideramos que uma parceria poderia ajudar o Brasil a se preparar para aproveitar essas oportunidades. Quando eu visito os estados, por exemplo, vejo que há muitas organizações e muitas empresas que já estão pensando sobre como podem usar essas oportunidades que estão por vir com a transformação econômica. 

No mês passado, tivemos a segunda visita ao Brasil de Alock Sharma (britânico, presidente da Conferência Mundial sobre o Clima de Glasgow, realizada em 2021). Ele saudou os compromissos assumidos pelo Brasil. Nossa parceria é orientada para o futuro.

Temos visto uma série de crises institucionais no Brasil. Existe temor de algum retrocesso democrático no país?

Consideramos que o Brasil possui uma democracia robusta e instituições sólidas. E, assim como em outros lugares, antes das eleições sempre há desafios. Mas nós acreditamos na capacidade dessas instituições de assegurar a defesa da democracia.

Uma atuação conjunta entre países, como nunca vista antes, resultou em fortes sanções contra a Rússia, por causa da invasão da Ucrânia. Isso pode se repetir, por exemplo para punir nações que deliberadamente não façam seu papel para reduzir os efeitos da mudança climática?

Pode ser. Por isso essa parceria com as grandes democracias é tão importante. Porque, como o Brasil, o Reino Unido é um país que acredita profundamente no livre comércio e na importância de manter as cadeias de abastecimento abertas. 

E, aqui no Brasil, várias pessoas disseram a Alock Sharma, por exemplo, que, dada a insegurança energética que existe na Europa agora, precisamos realmente avançar com esses compromissos de energia renovável. Ele afirmou que, exatamente por causa dessa turbulência, dessas atrocidades na Europa, que é ainda mais importante investir e acelerar ainda mais nas áreas de energia renováveis.


Fonte: O GLOBO 

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