Imprensa russa eleva o tom sobre a guerra na Ucrânia e afirma que massacre em Bucha foi obra dos próprios ucranianos

Editoriais sugerem 'reeducação' dos que apoiam as autoridades em Kiev, e textos reproduzem opiniões, que, para especialistas, não seriam levadas a sério há alguns anos

Porto Velho, RO - Em meio à consternação de governos, analistas políticos e jornalistas com as informações sobre o massacre na cidade ucraniana de Bucha, alegadamente cometido por forças russas, a mídia do país foi rápida ao reproduzir a linha oficial do Kremlin, pela qual nega qualquer participação no episódio.

Contudo, em vez de negar a morte de civis, como em outras ocasiões, os veículos alinhados ao governo passaram a apontar os próprios ucranianos como os autores dos ataques e já incorporam essa versão do massacre em Bucha à sua narrativa. 

Vale ressaltar que o país está sob leis que limitam críticas ao governo e que ameaçam com até 15 anos de prisão quem divulgar informaçoes consideradas falsas sobre a invasão, incluindo jornalistas.

— O Ocidente está pronto para apagar qualquer crime contra a Rússia. A linha entre o bem e o mal foi traçada, e Bucha é apenas o começo — afirmou o ex-deputado e aliado próximo de Vladimir Putin, Sergei Markov, ao tabloide Komsomolskaya Pravda, criado nos primeiros anos da União Soviética e conhecido por suas manchetes sensacionalistas.

Na entrevista, Markov disse que o Ocidente está “preparando um Holocausto do povo russo”, e que eventuais crimes de guerra cometidos por Kiev serão “tolerados” por nações como os EUA e pelos países europeus. Indo além, Markov disse ser “necessário derrotar o regime fascista o mais rapidamente possível”, referindo-se ao governo ucraniano

— Precisamos entender o mais rapidamente possível que uma guerra está acontecendo contra nós com o objetivo de destruir a Rússia, o genocídio do povo russo — afirmou, reproduzindo uma fala cada vez mais presente entre representantes da chamada “linha dura”, e que recebe cada vez mais atenção nos veículos que ainda operam na Rússia.

No mesmo jornal, um correspondente militar, Aleksander Kots, afirmou que o massacre de civis foi obra de um grupo neonazista, o Botsman, comandado por Sergey Korotkikh, paramilitar ligado ao Batalhão Azov, milícia de extrema direita e integrante das forças de segurança do país desde 2014.

“Na Rússia, esses neofascistas não criam raízes, mas a Ucrânia os recebe de braços abertos. Foi ele [Sergey Korotkikh] quem deu sinal verde para atirar em pessoas sem identificação”, diz Kots, no texto publicado nesta segunda-feira, listando uma serie de supostos fatos, mas sem demonstrar provas concretas.

Sem usar os mesmos termos do Komsomolskaya Pravda, as autoridades russas vêm negando qualquer participação de suas forças no massacre de Bucha. Segundo a Procuradoria-Geral da Rússia, os fatos narrados pelos ucranianos "são deliberadamente falsos" e afirma que, quando os civis foram mortos, os soldados russos já haviam deixado a cidade.

"Esses e outros dados confirmam que tudo o que aconteceu na cidade de 31 de março até ontem [domingo] depende exclusivamente do lado ucraniano", disse a Procuradoria, em comentários citados pela Interfax. "As falsas provas espalhadas pelo lado ucraniano são mais uma provocação, uma mentira cínica e que visa desacreditar o Exército russo nesta guerra de informação e de propaganda desencadeada pelo Ocidente."

'Desnazificação'

A ideia de que a Ucrânia é um país dominado por “nazistas” circula há alguns anos no meio político russo e tem suas raízes na percepção de que movimentos como a Euromaidan, que derrubou o líder pró-Moscou Viktor Yanukovych, em 2014, foram controlados pela extrema direita local.

De fato, o país tem um problema com grupos neonazistas, como o Batalhão Azov, mais tarde incorporado às forças de defesa ucranianas, e com milícias menores, que estão em ação desde 2014, quando estourou a guerra no Leste do país. Na prática, esses grupos possuem pouco poder de ação no cenário político local.

O que era uma teoria extrema chegou ao discurso oficial no começo do ano, quando Moscou, ao mesmo tempo em que negava ter planos de invadir a Ucrânia, dava sinais cada vez mais claros de que lançaria uma operação militar. No dia em que anunciou o ataque, Putin, em um dos mais sombrios discursos de suas duas décadas no poder, disse que “decidiu lançar uma operação militar especial voltada à desmilitarização e à desnazificação” da Ucrânia.

Putin jamais deu explicações claras sobre o que seria essa “desnazificação”, que chegou a ser colocada sobre a mesa nas negociações diretas entre Moscou e Kiev — mais tarde, ela teria sido retirada, segundo pessoas próximas às conversas. Contudo, seus aliados, muitos com voz ativa na imprensa, não tardaram a opinar sobre o conceito.

“A desnazificação é necessária quando uma parte significativa do povo, provavelmente a maioria, foi dominada e arrastada para o regime nazista”, escreveu, na RIA Novosti, o produtor cinematográfico e ferrenho defensor de Putin, Timofey Sergeytsev, no domingo. “O reconhecimento desse fato é a base da política da desnazificação, de todas as suas medidas.”

No texto, Sergeytsev diz que “parte significativa da população” é de “nazistas passivos” e que, para ele, também devem ser atingidos (e punidos) pela política da desnazificação.

Usando termos vindos dos tempos soviéticos, defendeu que essa parcela dos ucranianos seja “reeducada” e sofra “repressão ideológica”. Por fim, declara que o resultado final do processo será a própria “desucranização” da Ucrânia, refletindo questionamentos feitos pelo próprio Putin, e duramente criticados por pensadores não alinhados ao Kremlin.

“Vamos pensar que se, há alguns anos, um veículo de imprensa marginal publicasse isso [o texto de Sergeytsev], você diria: ah, são apenas alguns malucos, eles não representam ninguém”, disse, no Twitter, Sergei Radchenko, pesquisador da História da Guerra Fria e pesquisador do Wilson Center. 

“Mas a RIA não é um veículo marginal e, de forma mais preocupante, você não consegue mais distinguir entre lunáticos e a política tradicional russa. Isso é o que mais me preocupa.”


Fonte: O GLOBO

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