Dorival Jr completa 20 anos de carreira e ergue bandeira de técnicos do país até na seleção: 'Depois do Tite, deveríamos ter outro brasileiro'

Recuperado de câncer, treinador volta ao trabalho após dois anos e indica Ceará ofensivo contra o Botafogo e no Brasileiro

Porto Velho, RO - De volta ao trabalho após se recuperar de um câncer de próstata em meio à pandemia, Dorival Júnior completa 20 anos de carreira como representante fiel dos técnicos brasileiros que clamam por tempo para trabalhar, e defende profissional do país no lugar de Tite após a Copa do Mundo. 

No comando do Ceará, que engatou três vitórias sob seu comando, o treinador pede que todos os clubes se organizem como o Botafogo, adversário de hoje, 19h, no Castelão.

Como sua vida se transformou após a cura do câncer e da Covid?

Foi um período complicado. Vim de uma operação, peguei a Covid, me fez repensar. Preferi primeiro me reequilibrar totalmente para depois voltar. Tanto 2019 como 2021 foram anos que eu tive problemas, tive necessidade de dar uma segurada, para poder fazer o melhor em um futuro clube, que acabou sendo o Ceará.

Houve uma espécie de ano sabático ou você tinha a ambição de trabalhar fora do Brasil? Por que isso não aconteceu?

Sempre tive vontade de me ver fora do país. Difícil mensurar. Quando tive oportundiade estava trabalhando. E dificilmente deixaria por outra proposta. Pra mim foi importante esse período, esse processo todo, não foi nada programado.

São 20 anos de carreira desde a Ferroviária (SP). Quais os momentos mais marcantes? Que trabalho te orgulha mais? Santos 2010?

Agora que me dei conta, são 20 anos desde a estreia com a Ferroviária, minha cidade, minha terra, onde comecei como atleta e como treinador. Tivemos momentos marcantes, mas 2010 foi o que mais se aproximou do que eu penso em relação a futebol. uama equipe alegre, vibrante, ensinou o Brasil todo a dançar, respeitar adversários. 

Era equipe de forte marcação, recuperação de bola, e com a bola atacava com velocidade. Isso chamou atenção de todo o país. Era prazeroso assistir a equipe do Santos atuar, percebia pelas palavras de profissionais da área e torcedores de outros clubes. Mas tivemos momentos importantes. Foram 16 disputas de títulos, 11 conquistas, 5 vices.

São 23 trabalhos em 20 anos, da pra dizer que todos foram trabalhos de fato ou você ainda sonha com essa estabilidade?

Nem todos foram trabalhos de fato. Cada um teve seus detalhes, seus momentos, situações distintas. Pegamos equipes com possibilidade de chegar, em formação, sete ou oito em zona de rebaixamento. Acredito que o trabalho ideal seja desenvolvido desde a sua montagem. 

Reformula, monta o grupo de trabalho, faz as correções e prepara essa mesma equipe para conquistas. Esse é o trabalho ideal, nem sempre é possível, no Brasil trabalhamos com impaciência e imediatismo. Mas no futebol ninguém queima etapas. 

Na Europa um treinador tem um prazo de quatro anos, como Klopp, no Brasil esse período teria sido preenchido por sete ou oito treinadores. Ainda não tive uma condição como essa. Os períodos em que tivemos tempo maior com as equipes tivemos melhores resultados. As oportunidades não são dadas aos profissionais do nosso país.

Quantos clubes você assumiu em crise e qual foi a pior situação que topou?

Assumi oito clubes em crise. Talvez a mais difícil a do Atlético-MG em 2010. Mas a do Palmeiras foi a que exigiu mais trabalho, dedicação e comprometimento em 2014. Fico feliz de ter dado uma resposta positiva nesses clubes. Vasco, Flamengo, Fluminense, São Paulo, Santos, todos alcançamos o objetivo principal.

Temos visto violência desenfreada no campo e fora dele no Brasil. Corinthians, Flamengo. Já conviveu com isso?

Enquanto não tivermos posição do Ministério Público, clubess, atletas e imprensa, não mudaremos esse cenário. É a única profissão no mundo em que você é agredido dentro da sua casa, seu recinto de trabalho. 

Lamento muito. E fico pensando que teremos dias piores se nenhuma providência for tomada. Ta na hora das pessoas tomarem vergonha na cara, assumirem suas resnsabilidades e começarem a se atentar para esse mal que vem assolando as famílias e o futebol brasileiro. 

Precisamos de uma posição dos nossos governantes, das entidades, principalmente a CBF, e também dos sindicatos dos atletas e treinadores, procurando medidas que possam diminuir e acabar com essas agressões.

Teria vontade de comandar um clube com uma SAF como o Botafogo, seu próximo adversário? Por que?

Gostaria de ver todas as equipes do futebol brasileiro com equilíbrio e igualdade de condições, preparadas para esse novo momento que o futebol está vivendo. Seria satisfatório que as equipes pudessem segurar seus principais jogadores, e vender em momentos adequados. 

Nós podemos trabalhar nesse sentido de uma maneira mais próxima, lutando pelo futebol, buscando soluções a médio e longo prazo. As entidades deveriam se preocupar mais com isso, que é o produto mais vendável do nosso país. Aquele que mais representa o nosso país.

Você sempre foi um crítico ferrenho do calendário brasileiro e volta a trabalhar em um ano ainda mais apertado. Como driblar esse problema?

Não tem como driblar. O Ceará viaja 90 mil quilômetros por ano. A maioria das equipes viaja 30 mil quilõmetros. Absurdo a quantidade de jogos e competições. A quantidade diminuiu a qualidade. A ambição desmedida tem levado o futebol a esses momentos que temos acompanhado. 

Precisamos de posicionamentos claros, que mudem o perfil do que vem acontecendo. Infelizmente valorizamos a quantidade e abrimos mão do principal, a qualidade.

Como vê o equilíbrio de forças entre as equipes brasileiras no campeonato de pontos corridos hoje?

O equilíbrio tem acontecido nos últimos anos. Perdemos a maioria dos nossos jogadores. Tem uma média de 1500 jogadores fora todos os anos nos últimos 12 a 15 anos. Saem jogadores de alto nível, medianos, e de condição ainda menor, mas esses atletas poderiam abrilhantar nossos campeonatos. 

E têm saindo precocemente, antecipando o final de suas formações, que tem sido feitas fora do nosso controle. Queria ver as equipes brasileiras em condições de segurar mais os nossos atletas, as principais estrelas, fazendo com que o campeonato tivesse ainda mais qualidade do que o que se apresenta.

Quem joga hoje o melhor futebol no Brasil? E no mundo? Que sistemas de jogo mais te agradam?

De modo geral o Palmeiras, Atlético-MG, Flamengo. Vejo o futebol em franco desenvolvimento, com mudanças. Perdendo um pouco em qualidade e ganhando em outros aspectos. Fora do país, gosto de ver o trabalho do Pep Guardiola, além do Klopp, que chama atenção pelo comando de suas equipes, o desenvolvimento dos trabalhos, a formação dos seus elencos.

Como é o seu esquema no Ceará? Há variações? São três volantes?

Não vejo como três volantes. Sempre adiantei esses volantes. Na prática, a execução é outra. Vina é atacante que flutua, infiltra na hora certa. Precisamos de jogadores que movimentem e tenham infiltração. 

Vejo equipes jogando com três atacantes ou três meias que não tem as mesmas infiltrações que o Ceará tem apresentado. A característica do atleta vale muito mais do que a posição de origem. Tento explorar o máximo isso. 

Com um futebol em que prevaleça a posse de bola, mas o principal são os trabalhos de infiltração, ataque à última linha, se não estará fatalmente longe do gol.

E essa onda de treinadores portugueses que invadiram o Brasil desde o Jorge Jesus? Os têm como referência?

Treino do Ceará Foto: Divulgação

Todos aprendemos com todo mundo. Vejo os treinadores brasileiros muito bem preparados. Só que aqui não se consegue desenvolver trabalhos. Só os que vão alcançando resultados imediatos. Mas nosso país não é preparado para isso. 

E isso atrapalha o trabalho dos brasileiros e dos estrangeiros. Não tem como negar. Estamos na segunda rodada e temos três treinadores demitidos. Que caminho é esse? Que situação é essa? Será que não percebemos o mal que estamos fazendo para o futebol? Temos que colocar a mão na cabeça e começar a buscar uma autoanálise. Infelizmente estamos contribuindo, precisamos repensar o futebol, só encontraremos um caminho juntos. 

Não tem divisão de jovens e antigos, de fora e de dentro. Todos têm conteúdo. Temos que encontrar um caminho para os clubes serem seguros e conscientes nos momentos em que precisem definir a situação de um profissional. Do contrário ficaremos nessa ciranda dos últimos 25 anos. 

Que tem sido penoso para todos nós. O desrespeito é geral. Acontece em todos os seguimentos. E tem penalizado o nosso futebol.

Que méritos enxerga no trabalho do Abel Ferreira, que mesmo novo ganhou tudo com o Palmeiras?

Muitos méritos. Além de ser um profissional preparado, um estudioso, tem visão real do que é o futebol. Tem leitura de tudo que se passa em volta, administração de elenco. São quesitos necessários para um grande profissional. Com um clube bem estruturado, garotada valorosa, tem sabido administrar e dado uma resposta muito positiva. É ótimo para o clube, para ele, está de parabéns.

Tem visto a seleção do Tite? Como avalia o trabalho a meses da Copa do Mundo? Que técnico deveria assumir depois dele?

Tenho visto a seleção do Tite e outra do mundo. Pra mim a seleção brasileira está muito bem preparada. Chega em um momento importante finalizando a preparação, com um treinador com vasta experiência, uma Copa jogada. Com isso, teremos não só ótima equipe nas suas mãos, mas um profissional que sabe os caminhos da competição. 

Fico na torcida para que o Tite possa fazer a melhor competição possível e que tenhamos um fim de ano maravilhoso com uma grande conquista. Temos qualidade humana e jogadores de muito bom nível. E um que é especial, que fará uma grande Copa, que é o Neymar. 

Após o Tite, acredito que deveríamos ter um técnico brasileiro, torço para que isso aconteça, é a essência do nosso futebol. Tivemos cinco conquistas com treinadores formados no país. Acho que esse respeito deveria ser mantido. Temos profissionais preparados para estar à frente de uma das seleções mais respeitadas.

Você tem papel decisivo na carreira do Neymar. Acredita que ele atingiu o seu ápice no futebol e agora está em uma curva descendente?

Não acho que ele atingiu o ápice. Jogadores como Neymar, Messi e outros, têm potencial de desenvolvimento em qualquer idade. Ele teve um ano complicado em razão das lesões, mas é um jogador acima da média. Se estiver concentrado, preparado, fará a melhor Copa do Mundo, a sua Copa do Mundo. Espera que seja assim.

Fonte: O GLOBO

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