'A corrupção no governo de Áñez manchou toda a oposição', diz líder do movimento que levou à queda de Morales

Em visita ao Brasil, Luis Fernando Camacho, hoje governador de Santa Cruz, na Bolívia, se distancia de Bolsonaro mas não nega a pecha de 'radical'

Porto Velho, RO - Em 2019, o opositor Luis Fernando Camacho ficou famoso mundialmente depois que uma foto sua levando a Bíblia ao palácio presidencial da Bolívia, após a saída de Evo Morales, viralizou. 

Conhecido à época como o líder da ala mais radical da oposição boliviana que ajudou a tirar Morales do poder, o então presidente do poderoso Comitê Cívico de Santa Cruz ganhou projeção nacional nos últimos anos e acabou sendo eleito governador do departamento [estado], o mais rico do país.

Anos depois de ser comparado ao presidente Jair Bolsonaro pelos discursos ultraconservadores, Camacho agora tenta se distanciar do presidente, em entrevista exclusiva ao GLOBO. 

No país para um encontro com setores privados em São Paulo, o atual governador, no entanto, não deixa para trás seu passado e reafirma que, "para defender a democracia da Bolívia, é preciso ser mesmo radical".

Camacho defende ainda que seu objetivo foi cumprido após a saida de Morales, mesmo que o Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente, tenha voltado ao poder na eleição de 2020, e critica a gestão da ex-presidente Jeanine Añez, que tomou posse horas depois da renúncia, apoiada por ele e outros setores da oposição. 

Segundo o governador, os casos de corrupção do governo interino"mancharam toda a oposição boliviana" e contribuíram para a eleição de Luis Arce, no ano seguinte. Ainda assim, classifica a prisão de Ãñez como revanchismo.

Confira a entrevista completa:

O senhor ficou conhecido no Brasil como o líder da ala mais radical do movimento da oposição, que resultou na saída de Evo Morales do poder. Como definiria seu papel nesse processo?

Foi uma participação histórica, que tive a honra de estar ao lado de um povo, que revolucionou a história de um país em busca de sua liberdade, da democracia e do respeito ao voto. 

Nessa revolta, o principal ator foi o povo de Santa Cruz, que, gerando uma unidade com o povo boliviano, transformou em uma mobilização em nível nacional, idealizada por mulheres e jovens, que marcou uma nova história no país.

Mas o senhor se definiria como radical?

No momento de defender a democracia, a liberdade, o direito do cidadão ao voto, acho que sim, temos que ser radicais, não podemos permitir qualquer cálculo político. Em momentos como esse, vamos ser radicais sempre.

Qual a importância dos Comitês Cívicos, em Santa Cruz, e na Bolívia como um todo?

O movimento cívico [boliviano] nasceu há muitas décadas na raiz das lutas e reivindicações por direitos, em acesso a diferentes necessidades, que não eram cobertas pelo Estado. 

O Comitê Cívico de Santa Cruz é formado por 284 instituições que aglutinam toda a sociedade civil, representada por setores empresariais, de artesanato, da juventude, grupos femininos, indígenas, grêmios e sindicatos, como o de transporte. 

Essa instituição hoje lidera em toda a Bolívia as grandes reivindicações por democracia, por direitos, por liberdade, por justiça. Em Santa Cruz, o comitê cívico foi responsável por grandes mudanças, não só na região, mas também no país. 

Grandes lutas que começam em Santa Cruz e se irradiam pelo país, como o processo autonômico.

Uma imagem sua no Palácio Quemado, de joelhos, colocando uma Bíblia sobre a bandeira da Bolívia, correu o mundo. O que o senhor queria mostrar com o gesto?

Em primeiro lugar, não queríamos mostrar absolutamente nada, porque a foto não foi proposital, não foi tirada por ninguém da minha equipe, não sabemos quem a fez. 

A ideia era cumprir um compromisso de um movimento de fé, de muita esperança, para que o mundo inteiro visse que a Bolívia estava de joelhos, para mostrar que a fé nos deu força para levar adiante a revolução e nada melhor que entregar o melhor símbolo da unidade do país, representando todas as religiões. 

O compromisso era levar para aquele lugar, que vale lembrar nesse momento estava vazio, não era a sede do governo, o símbolo de unidade do nosso povo.

Ou seja, a Bíblia seria esse símbolo de unidade do povo?

Sim, o símbolo da fé de um povo.

Por isso e alguns outros gestos, o senhor chegou a ser comparado no Brasil ao presidente Jair Bolsonaro. Como vê essa comparação?

Não o conheço ou tenho elementos sólidos para responder se parecemos ou não. Minha motivação é a fé, que é a principal motivação de um povo. 

Foram dias de fé, de um povo orando de joelhos, e suplicando a unidade e a vitória de um país. Era essa fé que unia o povo, nosso povo é católico, mas respeitamos todas as religiões.

Mas a comparação com Bolsonaro não é apenas pela religião, mas também por valores conservadores.

Cada pessoa é distinta. Não sei quais valores definem o presidente, você pode me dar exemplos e eu digo se penso ou não igual a ele.

Em 2019, o senhor esteve no Brasil e se reuniu com o chanceler à época, Ernesto Araújo. Qual é sua relação naquele momento e agora com o governo brasileiro?

Visitamos os países que formavam parte da OEA e poderiam apresentar um pedido diante do organismo contra a tentativa de reeleição de Morales. 

Também estivemos na Colômbia, na mesma tentativa de apresentar uma consulta à OEA, para que o mundo inteiro soubesse que havia sido realizada uma violação do Pacto de San José [quando Evo Morales não respeitou o resultado de um referendo que lhe negou a possibilidade de concorrer à quarta reeleição].

Não tenho nenhuma relação, nunca tive a oportunidade de conhecer o presidente Bolsonaro. [Na semana passada] me reuni com o secretário de Relações Internacionais do governo de São Paulo, e irei ao estado do Amazonas para participar de um congresso, onde trataremos de temas como mudança climática. 

Em São Paulo, a ideia é me reunir com o governo local para conseguir mecanismos e levar investimentos a Santa Cruz, por parte do setor privado de São Paulo, além de outros temas que tratamos com o representante do governador. Não tivemos nenhum tipo de relação com o Estado brasileiro nesse momento.

Muitos questionaram a posse da presidente interina Jeanine Áñez, que agora está na prisão. Dois anos depois, o senhor mudou de ideia em relação ao apoio dado a Áñez naquele momento?

A posse estava dentro do marco dos acontecimentos daquele momento. Houve uma mobilização, uma revolta nacional, uma revolução que terminou com a saída do presidente Morales, e a sucessão de renúncias consequentes [de partidários do MAS] levou à posse da presidente [Áñez]. 

Nosso dever como cidadãos, como parte do movimento cívico e da mobilização nacional, terminou ali. Vimos a posse como legítima, celebramos que houvesse bandeira branca no país, que tivéssemos uma nova autoridade. Posso responder por seus atos até esse momento. A revolução terminou ali.

Luis Fernando Camacho: 'Isto aqui não é Venezuela nem Cuba' Foto: Javier Mamani / Getty Images

A gestão de Áñez foi marcada por muitos erros, que geraram uma grande crise para todos que estavam na oposição. Colocaram todos que não estavam alinhados aos MAS no mesmo saco. 

Todos esses erros pesaram muito. A corrupção desse governo foi terrível e deixou toda a oposição em uma situação muito dura. 

Era um governo que tinha um mandato, não deveria ter se estendido. Mas a ex-presidente pediu perdão por ter estendido seu mandato e por ter confiado em pessoas que negociaram os sonhos e as lutas do povo boliviano.

Como o senhor vê a prisão dela?

Todas as pessoas, não apenas uma ex-presidente, que cheguem a ser presas, devem ter o devido processo legal respeitado, seus direitos devem ser garantidos. 

No caso da ex-presidente, há um revanchismo, uma busca muito clara de vingança. Uma tentativa do MAS de mostrar a seus militantes que estão tratando com pulso firme quem pensa de maneira distinta. Ela deve ser responsabilizada, de acordo com as normas, respeitando seus direitos. 

Colocar em risco sua saúde não faz parte da sentença, que nem sequer saiu. Se trata de um boliviano a mais que está sendo tratado injustamente pela Justiça boliviana.

Como o senhor qualificaria a Justiça boliviana?

Se vamos ao conceito do que é a justiça, como mecanismo de respeito aos direitos dos cidadãos, não existe uma Justiça verdadeira na Bolívia. 

A Justiça boliviana está submetida ao poder político que está no poder, não somente ao MAS [partido de Morales e do atual presidente]. E isso faz com que não tenhamos um mecanismo real de justiça.

Mesmo depois de tudo que passou, o MAS voltou ao poder de forma democrática, com a eleição de Luis Arce. Como o senhor avalia o resultado das últimas eleições?

Primeiro é preciso dizer que nossa luta tinha um objetivo: a renúncia do ex-presidente Evo Morales. Nosso objetivo foi alcançado. O resultado das eleições em 2020 obviamente precisa ser respeitado, porque foi fruto da vontade do nosso povo. Respeitamos as normas e as leis e a vontade do povo.

Mas o que o senhor acha que aconteceu: se todo o povo foi às ruas pedindo a saída de Morales, como o mesmo povo possa ter elegido seu sucessor? O problema era somente Morales?

Claro, ele era o problema. Ele que violou as leis, os direitos, a votação. Quem vinha querendo se reeleger a todo custo era Morales. 

Toda essa luta teve um sentido claro e foi uma vitória por parte do povo boliviano. 
Não era sobre outra pessoa, estamos falando de quem governou por 15 anos e não respeitou seu povo. 
Nossa luta tinha uma finalidade: tirar quem violou o povo. 

Não posso dizer que qualquer pessoa de seu partido faria o mesmo. Mas obviamente, a corrupção que aconteceu nesse entremeio, no governo de Áñez, que não tinha nada a ver conosco, fez com que todos da oposição fossem colocados no mesmo saco da corrupção. Mas isso não teve nada a ver com a nossa luta.

Depois desse processo, o senhor chegou a ser candidato à Presidência e não venceu. O que aconteceu?

Não vencemos, mas nos tornamos a terceira força política do país, com representantes no Legislativo, o que era muito importante, consolidando em nível nacional uma representação parlamentar, para gerar estabilidade entre os Parlamentos. 

Depois dessa candidatura, resolvi ser candidato ao governo de Santa Cruz, com o mesmo projeto, mas regionalizado.

Como governador, o senhor está impulsionando um processo para dar autonomia às regiões. Como funcionaria?

Hoje não temos um sistema autonômico real, porque o governo mutilou uma série de competências que haviam sido votadas em um referendo pelo povo crucenho [de Santa Cruz]. 

No entanto, temos um regime autônomo pelo menos no nome, que nos permite seguir lutando pela verdadeira autodeterminação da região. 

O povo crucenho busca consolidar sua autodeterminação para ter uma liberdade mais sólida, uma economia mais sólida, uma estabilidade social, econômica e política, mas sobretudo democrática.

No cabildo [um encontro entre cidadãos e o governo municipal para debater e abordar questões de interesse público] iniciado em 4 de outubro de 2019, mais de 1,5 milhão de pessoas votaram para buscar o caminho de um estado federal, para consolidar seus direitos de autodeterminação. 

Buscando respeitar essa vontade do povo, apresentei, tanto em minha candidatura à Presidência quanto na regional, para governador, uma proposta para levar adiante esse projeto, que queremos para toda a Bolívia, em Santa Cruz e nos nove departamentos. 

Ou seja, empoderar o país a partir das regiões, respeitando suas realidades econômicas, culturais e sociais, para ter uma Bolívia que reflita a realidade de cada uma de suas regiões, e não como é hoje, a imposição de um Estado nacional.

Como o senhor vê os resultados recentes das eleições na América Latina, como no Chile e no Peru, onde a esquerda voltou ao poder? A esquerda está crescendo na região?

Acredito que em muitos países a esquerda é apenas um nome. Ser de esquerda ou de direita, em muitos países da região, não faz tanta diferença. Mais importantes são os partidos ou seus candidatos. 

Isso em todo o mundo, não apenas na América Latina. As pessoas votam pelo candidato, pela pessoa, não pelo projeto ideológico. Os países que ficaram amarrados na chamada esquerda tradicional obviamente terminaram muito mal, como no caso da Venezuela ou na Argentina atual. 

São conceitos que mudaram. A tendência no mundo de hoje é votar pela pessoa que ofereça garantias e tranquilidade ao povo e não mais por tendências ideológicas.


Fonte: O GLOBO

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