URGENTE

PAI HOMOSSEXUAL POR LUCIANA SADDI

Internauta: Sou separada há cinco anos. Tenho dois filhos, uma menina de 10 e um menino de 14. Separei-me quando meu marido se apaixonou por outro homem, bem mais jovem. Agora, ele quer contar a verdade para as crianças, assim se sentirá mais livre para sair com esta pessoa e com os filhos. Eu não concordo. Acho que é cedo para este tipo de explicação. Penso que deveríamos contar isso mais tarde, quando as crianças estiverem maiores.

Luciana: As separações deveriam ser tratadas como os casamentos, afinal são tão honrosas quanto as uniões. Por isso deveriam ser “ditas em palavras” pelos pais aos filhos, para não se transformarem em angústia indizível, expressa apenas pelas variações de humor (depressão e excitação) dos pais, que a criança vê como um forte abalo na sensação de segurança de todos os membros da família, incluindo-a, é claro.
É importante que os pais assumam a responsabilidade pelo fim da união, que haja um trabalho de preparação para que possam falar das razões pelas quais não encontram outra saída, ao invés das queixas passionais incompreensíveis aos olhos dos filhos. Um trabalho de elaboração dos motivos que levam o casal a separar é muito importante para assegurar aos filhos e aos pais certo equilíbrio num momento de instabilidade. As separações deveriam merecer um ritual em nossa cultura, diante da Justiça e dos representantes da Lei.
Tenho a impressão que sua separação e os motivos ainda não foram bem digeridos – situação compreensível, mas não desculpável e prenhe de preconceitos. É que as crianças, inconscientemente, apreendem o clima familiar, captam coisas que os adultos procuram esconder, às vezes são feitas de bobas e se tornam mais fracas, mesmo. É frequente que os pais pensem que são apenas crianças e não toleram as verdades da vida, mas em geral, são os adultos que não suportam certas situações e transferem para os filhos essa dificuldade.

Procure conversar com seus filhos, é provável que tenham hipóteses a respeito da separação ou será que tudo isso se tornou tão doloroso e proibido que não consigam mais pensar a respeito? A verdade dita com compaixão, dentro de um acordo feito previamente entre os pais costuma ser libertadora para todos os envolvidos e dói menos do que as angústias indizíveis.

A psicanalista Luciana Saddi é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Foi titular, por mais de 2 anos, da coluna "Fale com Ela" na Revista da Folha. É autora dos livros "O Amor Leva a um Liquidificador", da editora Casa do Psicólogo, e "Perpétuo-Socorro", pela Jaboticaba, e de artigos científicos em revistas especializadas.

E-mail: lusaddi@uol.com.br

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