Jovem Paiter Suruí recebe carteira da OAB em Cacoal e marca avanço na representatividade jurídica de RO

Jovem Paiter Suruí recebe carteira da OAB em Cacoal e marca avanço na representatividade jurídica de RO


“Dificilmente a gente acha indígenas formados em Direito. Até tem formados em Direito, mas poucos conseguiram a aprovação na OAB.” É o que diz o jovem Daivid Suruí ao refletir sobre a conquista que alcançou recentemente em Cacoal. Para ele e para o seu povo, o Paiter Suruí, a carteira vermelha que recebeu em mãos carrega um peso que vai muito além de uma vitória pessoal ou acadêmica.

A entrega do documento ocorreu durante uma solenidade da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rondônia (OAB RO) na subseção de Cacoal. Em meio ao grupo de novos profissionais que comemoravam a entrada nos quadros da instituição, a trajetória de Daivid ganhou um significado histórico ao destacar a relevância da representatividade originária no sistema de Justiça do estado.

Graduado em junho deste ano, o jovem passou a integrar uma minoria histórica na advocacia rondoniense, um cenário marcante para um estado que abriga cerca de mais de 20 mil indígenas distribuídos por mais de 20 etnias, segundo dados do Censo do IBGE.

O percurso de Daivid até a aprovação no Exame da Ordem exigiu vencer obstáculos diários que extrapolam a complexidade das disciplinas jurídicas. A jornada envolveu a rotina de deslocamento entre a vida comunitária na aldeia e a estrutura urbana, os custos para a permanência estudantil e o desafio constante de se adaptar a um ambiente acadêmico essencialmente ocidental.

A presença de um advogado originário atuando na subseção de Cacoal altera a própria dinâmica de defesa dos direitos territoriais e coletivos no interior do estado. Tradicionalmente, as demandas que envolvem as comunidades locais precisavam ser intermediadas por juristas e defensores externos. Com a regularização profissional de Daivid, as interpretações de preceitos fundamentais, como o artigo 231 da Constituição Federal, que assegura os direitos originários sobre as terras, ganham a perspectiva técnica de quem vivencia a realidade do território no cotidiano.

A conquista também representa um ganho direto na comunicação e no respeito às especificidades culturais. Ter um profissional indígena nos tribunais significa que a mediação de conflitos e a condução de processos judiciais podem ocorrer com compreensão linguística e cosmológica, sem ruídos na tradução de conceitos que muitas vezes o Direito estatal não consegue abarcar sozinho.

Refletindo sobre a importância desse compromisso assumido pelos novos inscritos na Seccional Rondônia, o presidente da OAB RO, Dr. Márcio Nogueira, destacou a responsabilidade que acompanha a conquista da advocacia: “Os cargos passam e os títulos se esquecem com o tempo, mas a história que construírem permanecerá. Tenham um orgulho imenso desta conquista, mas construam uma vida profissional grande, íntegra e humana. A Ordem dos Advogados do Brasil é essencial para o modo de vida e para as liberdades que usufruímos.”

Fonte: Ascom OAB/RO

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