A hora da verdade no futebol brasileiro

A hora da verdade no futebol brasileiro

Simulações são necessárias para que se entenda o cenário, as hipóteses e os potenciais ganhos e perdas

Chega um momento em que a apresentação no PowerPoint não satisfaz. Negociações se arrastam por meses. Simulações são necessárias para que se entenda o cenário, as hipóteses e os potenciais ganhos e perdas. Mas chega a hora em que a planilha do Excel já não se sustenta. É preciso ir a mercado para testar as premissas em face à vida real, determinada por oferta e demanda, relações pessoais de seus agentes, além de um tanto de sorte. E essa hora chegou para os clubes de futebol.

Uma turma saiu à frente. A Libra encaminhou negociação com a Globo por R$ 1,3 bilhão anual, ou R$ 6,5 bilhões em cinco anos — se você quiser trabalhar os números do jeito que os ingleses gostam, por ciclos. O valor pode ficar maior se a Globo sublicenciar jogos para outra empresa, como faz a Amazon na Copa do Brasil, e/ou se a receita do pay-per-view superar expectativas, o que exigirá a redução da pirataria e a expansão do público. É a precificação desses direitos na ótica da emissora.

A Globo está pagando muito ou pouco? Tecnicamente, o valor está vinculado ao tamanho do negócio da companhia. Ela arrecada com publicidades e assinaturas, gasta com a aquisição dos direitos e outros custos relacionados à transmissão, e o saldo precisa terminar positivo. Dito de um jeito mais direto, significa que R$ 1,3 bilhão é o valor que a empresa pode pagar; o número não cai do céu. A pergunta que importa é outra: é possível faturar mais do que a Globo e pagar mais aos clubes?

Esta é a promessa que vem fazendo a agência Livemode, dos executivos que criaram o Esporte Interativo. Eles venderam para clubes e investidores a tese de que o Campeonato Brasileiro poderia gerar R$ 3,8 bilhões, com toda a Série A e a inclusão de propriedades comerciais além da TV. Dirigentes compraram a ideia. Investidores também. Só que todo mundo achou que clubes fariam uma liga, e liga não há. Agora, quanto valem só os blocos Forte Futebol e Grupo União?

Vou contar um segredo. A Disney se interessou pelo Brasileirão. Chegou, sondou e desistiu — pelo menos até agora. Vá explicar a um estrangeiro a Lei do Mandante, a existência de dois ou três blocos de clubes, o fato de que um grupo vendeu 20% de receitas que ainda não possui para investidores. Tudo isto só agrava a percepção externa de que o Brasil é um mercado difícil e arriscado. Uma coisa seria fundar a liga e replicar as melhores práticas internacionais. Outra é a confusão que fizeram.

A comparação entre blocos ainda precisa ser feita com cuidado, para não confundir maçãs com bananas. A Libra está vendendo direitos de transmissão para a Globo, que por sua vez vai atrás de publicidades e anunciantes. Ponto. A estratégia da Livemode inclui placas estáticas. Se a agência fizer como faz no Paulistão — entrega a transmissão por pouco para Record, TNT e HBO Max e se vale da audiência para buscar patrocinadores —, é prudente não misturar as rubricas ao traçar paralelos.

Durante toda a negociação pela unificação, a Livemode insistiu que os clubes de seu pacote têm o mesmo valor comercial do que os da Libra. Números de audiência, ela tem para embasar. A Lei do Mandante equilibrou as ofertas. A questão é a precificação prática, que vai além das simulações em planilhas e apresentações. Haverá dinheiro no mercado? Principalmente oriunda de players novos, além da Globo? Hoje, ninguém isento pode cravar que sim ou não. Mas chegou a hora da verdade.


Fonte: O GLOBO

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