Jogadores cada vez mais jovens fazem coaching em busca de preparo mental para lidar com a pressão do começo de carreira

Jogadores cada vez mais jovens fazem coaching em busca de preparo mental para lidar com a pressão do começo de carreira

Atletas adolescentes e até crianças se tornaram pacientes de profissionais da área; movimento é recente

Kauan Basile só tem 11 anos e já acumula feitos. Tornou-se, aos 9, o mais jovem no mundo a assinar contrato com a Nike. No ano passado, marcou 26 gols no Paulista de sua categoria e bateu o recorde da competição, superando estrelas como Endrick e Rodrygo. Mas, em meio a tantos números, um detalhe chama a atenção. Antes da cobrança de algumas faltas importantes e pênaltis, o menino fecha os olhos e respira fundo. Técnica que aprendeu em sessões de coaching mental.

A presença deste profissional não é novidade no futebol. A técnica, inclusive, nasceu no ambiente esportivo dos EUA e depois se espalhou pelo meio empresarial. Na década passada, diversos clubes brasileiros recorreram a coaches em algum momento — de baixa ou de alta. O movimento que tem se destacado de três anos para cá é a adesão de jovens e até de crianças.

Com a atenção cada vez maior do mercado à base, cresce também a estrutura em torno das chamadas joias. Seus pais e, principalmente, empresários buscam cercá-los com serviços particulares, como o de preparação física e agora também de coaching.

— Muitos empresários passaram a procurar porque os meninos começaram a apresentar sintomas de dificuldade na parte mental, de lidar com a pressão muito precoce para uma criança. A configuração da base passou a exigir das crianças muitos resultados e muito cedo — aponta Lulinha Tavares, que se define preparador mental e trabalha com Kauan e seu irmão Lucas Yan, do sub-20 do Santos, além de ter passagens por clubes como Flamengo, Palmeiras e Fluminense em 15 anos de atividade.

— No futebol, por si só, já há essa pressão. E faz com que os meninos comecem a ter dificuldade em níveis de concentração e em lidar com a própria ansiedade, que a gente chama de ansiedade para ter desempenho.

De acordo com o preparador mental, dos cerca de 70 clientes que atende atualmente, em torno da metade tem até 18 anos. O mais novo é Joaquim Lucas, com 8, do futsal do Palmeiras. Apelidado de “El Mago”, ele se tornou, no ano passado, o mais jovem a ser patrocinado pela Adidas.

Como ocorre com atletas de todas as idades, o coaching trabalha o foco, o nível de concentração e a definição de metas e de estratégias para alcançá-las. No caso específico dos jovens, outras questões são exploradas. Entre elas, aprender a lidar com o processo de maturação, entender que ele funciona em tempos diferentes para cada indivíduo e compreender que um ano de idade já representa uma diferença física muito grande. Além, claro, saber administrar a ansiedade comum desta fase da carreira.

Outra particularidade são as sessões para os pais. O intuito é que também estejam preparados para atravessar este período com os filhos.

Pai de Kauan e de Lucas, Andrezinho também foi jogador. Revelado pelo Corinthians, foi um dos destaques do título da Copa São Paulo de 1999. Promovido, integrou o elenco campeão brasileiro no mesmo ano, que contava com nomes como Marcelinho Carioca, Luizão, Edilson, Vampeta, Ricardinho e Dida. Mas, assim como muitos talentos do torneio de base, não encontrou o mesmo sucesso no profissional. Agora, acredita que os filhos estarão mais preparados do que ele estava.

— Subi em 99 num time extremamente forte que tinha Rincón, Vampeta, Edilson... Naquele momento faltou para mim mais personalidade para encarar essas “cobras”. Acabei me diminuindo perante eles. Esse trabalho de desenvolver autoconfiança, acho que faltou para mim em alguns momentos. Embora tivesse muita capacidade, acho que me faltou um pouco de controle emocional para lidar com a situação — reflete Andrezinho, que já enxerga um preparo em Kauan.

— Ele tem 1 milhão de seguidores no Instagram. Nos torneios, não consegue andar fora de campo. As crianças ficam todas em cima. É uma loucura. Mas o Kauan é muito calmo. Não o vejo entrar em vaidades. Acho que tem um controle mental muito bom. Não liga para o que dizem dele, seja positivo ou negativo.

O atacante brasileiro Vitor Roque posa para fotos durante sua apresentação oficial como novo jogador do Barcelona, em Sant Joan Despi, perto de Barcelona — Foto: Josep LAGO / AFP

Comparado a Kauan, Vitor Roque já pode ser chamado de veterano. Mas só tem 18 anos. Já enfrentou as angústias da base e até a frustração de sair do banco para estrear como profissional e ser substituído 18 minutos depois, antes do apito final. Agora, encara novo desafio. Recém-chegado no Barcelona, perdeu o status que tinha no Athletico para ser mais um em busca de espaço. E num time estrelado, mas em crise.

— A expectativa que se cria em cima de um menino com o potencial dele é que chegue lá e já jogue na outra semana. E que, na seguinte, faça gol. E que depois vai ser artilheiro da Champions. Por parte do atleta essa expectativa não foi criada. Só que você é envolvido na do outro — explica Lulinha Tavares, que trabalha com Roque há mais de dois anos e diz ter usado exemplos como o de Vinícius Junior para mostrar o que ele poderia encontrar.

— É como se tivesse passado por um simulador e agora vivendo a realidade. Ele foi, do ponto de vista mental, preparado. Mas todo o preparo é insuficiente. Porque você não sabe a consequência de sofrer uma goleada de cinco para o Real Madrid, embora ele não tenha jogado. Não sabe o peso da cobrança por estar nesse clube, de não fazer gol logo. Mas isso foi previsto. Nós buscamos sair dessa vibe da empolgação.

Incluir o contexto no trabalho de coaching, como ocorre no caso de Roque, é crucial para evitar uma cilada. Se não considerar fatores alheios ao atleta, o processo pode se voltar contra ele.

— Tenho muitos colegas psicólogos do esporte que têm recebido atletas jovens, vindos de coaches, trazendo que eles acabaram com sua autoconfiança — relata Alberto Filgueiras, ex-coordenador do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva, da Uerj, e atualmente professor do departamento de psicologia da University of Gloucestershire, na Inglaterra.

Com passagens pelo Flamengo e pelo COB, o psicólogo alerta para o fato de não haver regulação da atividade no Brasil. Ele recomenda aos responsáveis dos atletas que busquem a formação dos coaches antes de contratá-los.

— Um dos principais discursos do coaching é que você é o responsável pelo que acontece contigo. Então, se não tem resultados é porque não está sendo bom o suficiente. Aí se esforça mais, só que o resultado não vem. Chega uma hora que “quebra”. É a diferença do mau profissional para o bom. O mau diz que se você fizer sua parte o resultado vem. O bom, que o resultado pode não vir. Mas tudo bem, porque o importante é você se sentir bem.


Fonte: O GLOBO

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