União Europeia anuncia planos para cortar todas as importações de petróleo da Rússia até o fim do ano

Nova rodada de sanções aumenta seriamente pressão sobre Moscou, mas medidas podem ter efeitos indesejados, conforme sobem o preço do barril e a inflação na Europa

Porto Velho, RO - 
A União Europeia planeja eliminar todas as suas importações de petróleo bruto russo nos próximos seis meses e de combustíveis refinados até o final do ano, como parte de uma sexta rodada de sanções com o objetivo de aumentar a pressão sobre o presidente russo, Vladimir Putin, por sua invasão da Ucrânia.

— Esta será uma proibição completa de importação de todo o petróleo russo, marítimo e por oleoduto, bruto e refinado — disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em comentários ao Parlamento Europeu.

— Garantiremos a eliminação gradual do petróleo russo de forma ordenada, de uma maneira que permita a nós e a nossos parceiros garantir rotas alternativas de abastecimento e minimizar o impacto nos mercados globais.

Hungria e Eslováquia, que dependem fortemente da energia russa e se opuseram a um corte repentino de petróleo, terão um prazo maior—- até o final de 2023 — para aplicar as sanções, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Os preços do petróleo subiram após o anúncio, com os títulos do Brent sendo negociados em alta de cerca de 3%, com o barril a US$ 108.

A UE também propôs cortar do sistema internacional de pagamentos Swift o Sberbank — o maior banco da Rússia —, o Banco de Crédito de Moscou e o Banco Agrícola Russo. A Comissão Europeia, braço Executivo do bloco, quer também proibir emissoras russas das ondas de rádio europeias.

Para aprovação, a proposta precisa de apoio unânime dos 27 Estados-membros da UE, que se reunirão na quarta-feira da semana que vem para discutir e potencialmente aprovar a proposta.

Esta rodada de sanções significaria um divisor de águas para o maior bloco comercial do mundo, que depende fortemente do petróleo e do gás russos e precisará encontrar suprimentos alternativos em um momento em que os preços da energia estão subindo.

A UE é o maior consumidor de petróleo e combustível da Rússia. Cerca de 25% por cento do petróleo bruto da Europa vem da Rússia, mas há grandes diferenças no nível de dependência entre os países.

Geralmente, quanto mais próximos estão de território, mais dependentes os países são. Espanha, Portugal e França importam quantidades relativamente baixas de petróleo da Rússia.

Por outro lado, vários países, incluindo Hungria, Eslováquia, Finlândia e Bulgária, geralmente importam mais de 75% de seu petróleo da Rússia, e podem ter dificuldades para substituí-lo por fontes alternativas no futuro próximo.

A relutância em aplicar sanções que prejudicarão as economias europeias diminuiu nas últimas semanas, conforme a guerra se prolonga, os Estados Unidos investem nela a longo prazo e imagem de crimes de guerra em cidades ocupadas proliferam.

Refletindo a raiva generalizada no Ocidente pela invasão ordenada pelo presidente russo, Vladimir Putin, von der Leyen disse que Moscou deve enfrentar as consequências.

— Putin deve pagar um preço, um preço alto, por sua agressão brutal — afirmou.

Se acordado, o embargo seguirá os Estados Unidos e o Reino Unido, que já impuseram proibições com o objetivo de cortar um dos maiores fluxos de renda da economia russa. O Ocidente compra mais da metade de seu petróleo e derivados de petróleo da Rússia.

O governo húngaro disse que a proposta não especifica como sua segurança energética seria garantida.

— Não vemos nenhum plano ou garantia sobre como uma transição poderia ser gerenciada com base nas propostas atuais e como a segurança energética da Hungria seria garantida — disse o porta-voz do governo húngaro, Zoltan Kovacs.

Analistas dizem que, embora possível, cortar todos os laços petrolíferos da Europa com a Rússia exigirá tempo, e pode levar à escassez e preços mais altos da gasolina, diesel, do querosene de aviação e de outros produtos. Esta alta de preços se dá em um contexto de inflação alta, e pode prejudicar a recuperação econômica europeia.

Além disso, é incerto o quanto um embargo ao petróleo russo cumprirá o objetivo de de cortar as receitas do Kremlin.

Até agora, a pressão sobre a Rússia tem aumentado o valor do barril, e, portanto, as receitas russas. A Rystad Energy, uma empresa de consultoria, projeta que, embora a produção de petróleo russa deva diminuir em 2022, a receita total do governo russo com o combustível provavelmente aumentará cerca de 45%, para US$ 180 bilhões.

Simone Tagliapietra, do think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, disse que um embargo gradual ao petróleo russo era arriscado.

— No curto prazo, isso pode deixar as receitas russas altas e acarretar em consequências negativas para a UE e para economia global em termos de preços mais altos, sem mencionar os riscos de retaliação (pela Rússia) sobre o fornecimento de gás natural — disse ele.

Na última retaliação russa na semana passada, Moscou cortou o fornecimento de gás natural para a Polônia e a Bulgária. É comparativamente mais fácil substituir as importações de petróleo do que as de gás.

Quanto aos bancos, von der Leyen afirmou que as sanções “solidificarão o completo isolamento do setor financeiro russo do sistema global”.

— Atingimos bancos que são sistemicamente críticos para o sistema financeiro russo e a capacidade de Putin de promover a destruição — disse.

O Sberbank não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. O credor, que saiu de quase todos os mercados europeus em março, disse anteriormente que outras rodadas de sanções não teriam um impacto significativo em suas operações.

Von der Leyen disse que mais oficiais militares russos de alto escalão enfrentarão congelamentos de ativos da UE e proibições de viagens, sem dar nomes, e que a UE também banirá contadores, consultores e especialistas europeus que trabalham para empresas russas.

As emissoras estatais russas RTR-Planeta e R24 devem ser excluídas das ondas de rádio europeias como parte das últimas sanções, disseram diplomatas.

Von der Leyen também propôs um plano de recuperação para a Ucrânia tão logo o conflito termine, dizendo que são necessários centenas de bilhões de euros em financiamento para reconstruir o país.

— Eventualmente, isto abrirá caminho para o futuro da Ucrânia dentro da União Europeia — disse von der Leyen.


Fonte: O GLOBO

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