'Seremos aliados de todos os países democráticos', diz candidato que busca impedir guinada à esquerda na Colômbia

Em entrevista ao GLOBO, Federico Gutiérrez, candidato à Presidênca alinhado à direita e à centro-direita, defende um governo com base no consenso e rejeita a polarização do país

Porto Velho, RO - Em agosto do ano passado, o ex-prefeito de Medellín Federico Gutiérrez tinha 29% das intenções de voto na corrida presidencial colombiana, contra 65% do senador e agora candidato à Presidência do esquerdista Pacto Histórico, Gustavo Petro. De acordo com as últimas pesquisas, Fico, como é chamado pelos colombianos, subiu para 45,2%, e Petro caiu para 52,4%. 

A esquerda continua sendo favorita, mas faltando menos de um mês para o primeiro turno, no domingo 29 de maio, Gutiérrez instalou-se como a esperança da direita e da centro-direita nacional e internacional para impedir uma guinada drástica na política de seu país.

Em entrevista ao GLOBO, o candidato da aliança Seleção da Colômbia descolou-se da figura de Jair Bolsonaro e frisou que, se for eleito, estará ao lado de “líderes democráticos”. 

Ao contrário de seu rival, que declarou apoio explícito à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-prefeito de Medellín evitou mencionar o nome de Bolsonaro e assegurou, perguntado sobre a eleição brasileira, que “seja quem for seu líder…buscaremos as melhores relações em democracia”.

O senhor é considerado o candidato da centro-direita e da direita colombiana. Como se define politicamente?

Me defino como alguém que não se deixa encaixar em categorias de esquerdas ou direitas. Meu foco é encontrar soluções responsáveis e sustentáveis para os problemas sociais mais urgentes. Insisto há muitos anos em dizer que a segurança não é um assunto de direita, a segurança é um direito de cada uma das pessoas. 

Da mesma maneira, a ajuda social não pode ser considerada como política de esquerda: trata-se de uma política de sentido comum, que dá oportunidades e dignidade às pessoas mais vulneráveis da sociedade.

Num eventual segundo turno, o senhor vai precisar dos votos da direita liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), que parece tê-lo escolhido como seu candidato. Isso não condicionaria eventualmente seu governo?

Eu preciso dos votos da maioria dos colombianos. Esta é uma candidatura de consensos e para a qual o grande propósito é unir as pessoas e deixar a polarização para trás. Vamos fazer isso com um diálogo próximo e um estilo de governo aberto a todas as pessoas. 

Fui independente desde o início de minha carreira, como vereador em Medellín, e trabalhei com partidos políticos, setores da academia, empresas e setores sociais. Meu foco são a unidade e as soluções.

A esquerda continua como favorita nas pesquisas...

O candidato da esquerda, como você o chama, está atuando em política há mais de 20 anos, e esta é mais uma de suas campanhas presidenciais. Nós fizemos uma carreira mais curta e com uma origem local, a cidade de Medellín. 

Agora demos um grande salto à política nacional. Vamos bem, mas entendemos que muitas pessoas ainda estão nos conhecendo e se conectando com a nossa mensagem. Finalmente, reconheço que existe um mal-estar profundo na sociedade e eu respeito isso. Vou buscar a maneira, primeiro, de dialogar com aqueles que têm e buscam soluções de maneira conjunta.

Que países da região seriam seus aliados?

Seremos aliados de todos os países democráticos.

O Brasil também está em campanha eleitoral. Se o senhor for eleito, se sentiria mais confortável tendo Bolsonaro ou Lula como presidente do Brasil?

As relações entre Estados devem estar acima das pessoas. Aqui todos estamos de passagem, o importante é que o diálogo entre nossos países seja preservado. Buscarei as melhores relações e o diálogo com qualquer um que seja um líder democrático de outro país.

O atual governo do presidente Iván Duque é um forte aliado de Bolsonaro. O senhor daria continuidade a essa aliança?

Repito, o importante é a relação entre Estados, seja quem for seu líder. Buscaremos as melhores relações em democracia.

A violência aumentou muito na Colômbia, assim como também o narcotráfico. Qual é sua proposta para garantir a paz? Petro propõe a legalização das drogas…

Nossa proposta é simples. O problema do narcotráfico é muito mais complexo de ser solucionado. Acreditamos na necessidade de ordem, no combate a grupos ilegais, atacando suas finanças, trabalhando articuladamente com a força pública e a Justiça e, também, levando oportunidades aos setores camponeses que foram forçados a depender de cultivos ilícitos. 

Para eles haverá ajuda do governo e opções para que sejam plantados outros cultivos, para que tenham acesso a internet, serviços públicos e financiamento para projetos produtivos.

O senhor faria mudanças no acordo de paz assinado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)?

Votei a favor do acordo de paz e vou cumprir o acordo. Vamos focar no cumprimento dos compromissos com as vítimas, que são as que sofreram e padeceram a violência.

Se o senhor for eleito, terá de governar com um Congresso no qual a esquerda ampliou espaços. Isso o preocupa?

Chegaremos a consensos. Acima da filosofia política, o Congresso está formado por pessoas com desejos de gerar reformas para o desenvolvimento da Colômbia. Vou trabalhar com todos os setores, dialogando com respeito e atitude construtiva. Como lhe disse antes, acredito que acima de esquerdas ou direitas, temos de buscar propósitos comuns.

Quais são suas principais propostas de governo?

Primeiro, unidade. Não mais polarização, a união é fundamental. Segundo, 39% dos colombianos estão em situação de pobreza, vamos focar num programa nacional de Fome Zero. Vamos aumentar o subsídio Renda Solidária, que é uma espécie de renda básica que ajuda cinco milhões de colombianos. 

Nesse mesmo programa social, vamos aumentar a cobertura da matrícula zero para estudantes em setores sociais pobres. Terceiro, vamos impulsionar o programa de infraestrutura em todo o país, terminando as obras do 4G e começando as do 5G. 

Isso vai gerar investimentos e emprego. Finalmente, triplicaremos os investimentos no campo. A Colômbia precisa gerar uma revolução agrária, não mais revoluções armadas.


Fonte: O GLOBO

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