Rodrigo Capelo: A Lei do Mandante já mudou a liga

Qualquer mudança para lá ou para cá faz com que clubes arrecadem dezenas de milhões de reais a mais ou a menos

Porto Velho, RO - Noutros tempos, se tivesse havido consenso entre Flamengo e os principais clubes de São Paulo, a criação da liga estaria decidida. Detentores das maiores torcidas e dos direitos de transmissão de maior valor comercial, esses se imporiam sobre os demais e ditariam as regras do jogo — especificamente: distribuição do dinheiro, calendário e tudo mais sobre Campeonato Brasileiro. Noutros tempos. Hoje, por causa da Lei do Mandante, o cenário é um tanto inédito.

Voltamos ao assunto por causa da aparição da Libra, acrônimo para Liga do Futebol Brasileiro. A unidade foi anunciada por Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Santos e São Paulo. Também já assinaram seu estatuto Cruzeiro e Ponte Preta. Esses clubes vêm sendo assessorados pelo advogado Flavio Zveiter e pela empresa que este fundou, a Codajas.

O que trava a adesão do restante das Séries A e B a essa liga, pelo menos por enquanto, é a existência de outro grupo, o Forte Futebol. Com a participação de dez clubes considerados emergentes, além da simpatia de Atlético-MG, Botafogo, Fluminense e Internacional, esse bloco diverge da Libra em questões como a distribuição do dinheiro oriundo da transmissão.

Qual era a influência exercida em negociações anteriores, seja no Clube dos 13 ou depois, por clubes como Athletico-PR, Ceará e Fortaleza? Por mais que o atleticano Mario Celso Petraglia falasse alto, sejamos sinceros e claros: quase nenhuma. E era assim porque nenhum desses tinha qualquer ingerência sobre os direitos de transmissão dos considerados grandes.

A Lei do Mandante mudou tudo. Antes, o Flamengo tinha poder sobre todas as suas 38 partidas do Brasileirão. Ao se aliar ao presidente Jair Bolsonaro para editar a Medida Provisória que daria início ao movimento pelo direito restrito ao mandante, o clube entregou 19 jogos para concorrentes. Athletico-PR, Ceará, Fortaleza e todos os componentes do Forte Futebol têm confrontos com Flamengo, Corinthians e demais integrantes da Libra para comercializar.

A Libra propôs dividir a verba de mídia da primeira divisão em 40-30-30, ou seja, 40% iguais para todos os clubes da Série A, 30% de acordo com colocação na tabela e 30% segundo “engajamento” — combinação de itens como público no estádio, pacotes de pay-per-view vendidos e tamanho de torcida. O Forte Futebol discorda e prefere dividir em 50-25-25.

Parecem até esquemas táticos, mas são fórmulas inspiradas no futebol europeu e estão entre os números mais importantes para o futuro do futebol brasileiro. Qualquer mudança para lá ou para cá faz com que clubes arrecadem dezenas de milhões de reais a mais ou a menos. É por isso que este assunto causa tanto bafafá nos bastidores. Há muito dinheiro em jogo.

O que está à prova agora é a coesão e a firmeza dos dirigentes que representam o Forte Futebol. O direito de transmissão é a única receita que pode ser direcionada para que o futebol fique menos desequilibrado, mais competitivo. 

Corinthians e Flamengo foram beneficiados por tempo demais na área da mídia e têm torcidas grandes suficientes para gerarem verba noutras fontes. Se os dirigentes dos demais clubes souberem negociar em alto nível, sairão maiores do que entraram. A Lei do Mandante é o trunfo que jamais tiveram.


Fonte: O GLOBO

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