Biden tentará marcar posição frente à China em sua primeira visita à Ásia

A partir desta sexta, democrata se deparará com novos contextos políticos na Coreia do Sul e Japão; analistas apontam que propostas para a região podem ser insuficientes para firmar um papel de liderança de Washington

Porto Velho, RO - Perto de completar um ano e meio à frente do governo dos Estados Unidos, o presidente Joe Biden finalmente visitará a região que, logo em seus primeiros dias na Casa Branca, foi apontada como sua prioridade: a Ásia. 

A partir desta sexta-feira, o democrata visitará a Coreia do Sul e o Japão, se deparando com novos contextos políticos, problemas renovados e onde tentará marcar posição frente à China. Contudo, especialistas veem as propostas americanas, especialmente as econômicas, pouco atraentes aos parceiros asiáticos.

Na primeira parada, em Seul, Biden se encontrará com o presidente Yoon Seok-yeol, um conservador que, ao mesmo tempo em que defende uma parceria mais intensa e próxima com os EUA, também apontou, ao longo da dura campanha que o levou ao cargo, que favorece uma posição mais agressiva em relação à Coreia do Norte.

Desde o início do ano, Pyongyang realizou uma série de lançamentos de projéteis e mísseis, alguns com capacidade de atingir o território dos EUA. Analistas e assessores da Casa Branca ainda veem como provável a realização de um teste nuclear — o primeiro desde 2017 — e não descartam que ocorra durante a estadia de Biden na Península Coreana.

A Coreia do Norte também enfrenta uma onda de casos de Covid-19, a primeira desde o início da pandemia, e que pode se tornar uma grande crise sanitária e humanitária. Segundo o Comando Nacional de Resposta a Emergências do país, citado pela agência KCNA, entre os dias 17 e 18 de maio foram registrados 262.270 novos casos de "febre", como as autoridades vêm se referindo à doença, com o número total de infectados desde o final de abril atingindo 1,97 milhão. Até o momento, foram registrados 63 óbitos.

As negociações entre as duas Coreias estão congeladas desde 2019, e Yoon, ao mesmo tempo em que prometeu incentivos econômicos em troca da desnuclearização, não recuou em seu discurso de campanha, quando defendeu bombardeios preventivos para impedir um ataque do Norte. A expectativa é de que ele ainda apresente a Biden um outro plano igualmente controverso: o retorno do posicionamento de armas nucleares americanas em solo coreano, o que não acontece desde 1991.

Os EUA, embora reafirmem seu compromisso com a defesa da Coreia do Sul, não dão sinais de que pretendem reposicionar suas armas nucleares na região. A visita de Biden, inclusive, deve ser mais voltada a questões econômicas e relacionadas à China do que a soluções para romper o impasse com Pyongyang.

A expectativa inicial era de que o presidente americano fosse até a Zona Desmilitarizada que divide as Coreias, mas a agenda oficial traz, em vez disso, uma visita a uma fábrica de chips, item extremamente necessário para indústria dos EUA — resolver problemas em sua cadeia de suprimentos, sem depender dos chineses, é uma das prioridades de Biden.

Apesar da região figurar em lugar central na política externa atual da Casa Branca, a viagem do democrata ocorre com certo atraso, até mesmo em comparação com seus antecessores mais recentes, como Trump e Barack Obama.

Efeito da guerra na Ucrânia

Além da pandemia do novo coronavírus, que impediu por um longo tempo os encontros presenciais, Biden se viu imerso em uma sequência de crises que não poderiam ser adiadas, como a desastrosa retirada do Afeganistão e a invasão russa da Ucrânia, um evento que também interfere em seus objetivos na Ásia e no Pacífico.

— O governo Biden, de forma correta, vem gastando muito tempo com a Ucrânia e a Europa. Então penso que quer mostrar à população da Ásia, e indiretamente à China, que a Ucrânia é importante, mas ao mesmo tempo que a Ásia também é importante — afirmou à Kyodo News Satohiro Akimoto, da Fundação Sasakawa para a Paz, nos EUA.

Biden gastará boa parte de seus dias em Seul e em Tóquio fortalecendo parcerias, buscando novos aliados próximos, e tentando marcar seu antagonismo em relação à China — dentro da Casa Branca, o consenso é de que essa relação de rivalidade com Pequim vai nortear a diplomacia americana no século XXI, e que é necessário para os EUA serem vistos em um papel de liderança.

A realidade, contudo, pode ser um pouco mais complicada.

A começar pela percepção local de que os planos de Washington são mais voltados a preocupações próprias de segurança, ligadas à China, do que ao incentivo à cooperação, e mesmo assim tímidos se comparados a ações existentes. 

Um exemplo veio na semana passada, quando Biden anunciou um fundo para a Asean, a Associação de Nações do Sudeste Asiático, de US$ 150 milhões para projetos de segurança marítima, energia limpa e medidas contra a corrupção.

Como apontou Edward Luce, chefe da sucursal do Financial Times em Washington e colunista, o valor corresponde a apenas alguns dias de investimentos na chamada Iniciativa Cinturão e Rota, um dos pilares da política externa chinesa, ou a algumas horas dos gastos militares dos EUA.

Durante a viagem, Biden deve lançar oficialmente o chamado Quadro Econômico Indo-Pacífico (Ipef), anunciado em outubro do ano passado, e que deve incluir Austrália, Japão, Coreia do Sul, Nova Zelândia e Cingapura. 

A Casa Branca frisa que esse não será um acordo comercial, mas sim uma parceria em campos como o comércio exterior, o fortalecimento das cadeias de suprimentos, infraestrutura, descarbonização e medidas relacionadas a impostos e de combate à corrupção.

A iniciativa não agradou aos chineses, que em editoriais recentes apostam no fracasso do Ipef e criticam o que veem como diplomacia agressiva de Washington, em especial relacionada a Taiwan, considerada uma província rebelde por Pequim e que correria o risco de ser invadida militarmente, algo negado pela China.

Especialistas também apontam que a China já tem, desde 2020, uma iniciativa bem mais robusta, a Parceria Econômica Regional Abrangente, que compreende 15 nações da Ásia e Oceania (incluindo aliados de Washington) e agrega, de forma conjunta, um terço do PIB global. 

A relutância da Casa Branca em voltar à Parceria Transpacífico, acordo comercial central na estratégia de Barack Obama para a região e abandonada por Donald Trump, também é criticada por alguns de seus aliados na Ásia. A Parceria hoje reúne 11 países.

Mesmo uma das poucas iniciativas de relativo sucesso de Biden, o chamado Quarteto, formado por EUA, Japão, Índia e Austrália, tem suas próprias fissuras, como a relutância indiana em condenar a invasão russa da Ucrânia, e sua posição de considerar Moscou um "parceiro estratégico". 

Os líderes devem realizar uma reunião na quarta-feira, em Tóquio, e que pode contar com uma mudança de última hora: a Austrália realizará eleições gerais três dias antes do encontro, e o líder da oposição trabalhista, Anthony Albanese, afirmou que, caso vença, vai ao encontro no lugar do atual premier, Scott Morrison.

 Para certo alívio na Casa Branca, Albanese considera a parceria com Washington um dos pilares de seu eventual governo.


Fonte: O GLOBO

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