Apesar de desculpas de Putin a Israel, comentários sobre Hitler e judeus expõem posição dúbia da Rússia sobre o antissemitismo

Discurso contra judeus está presente no meio político russo bem antes da guerra na Ucrânia, e especialistas veem tentativa de usar o tema para esconder 'fracassos' do Kremlin

Porto Velho, RO -
Dias depois de o chanceler russo, Sergei Lavrov, sugerir que o ditador nazista Adolf Hitler “teria sangue judeu”, os líderes da Rússia e Israel conversaram por telefone na quinta-feira e tentaram amenizar a situação.

Pelo relato do governo israelense, Vladimir Putin “se desculpou” pelas palavras do diplomata, algo não mencionado pelo Kremlin, que destacou como os dois lados “preservam cuidadosamente a verdade histórica” sobre a Segunda Guerra e honram “a memória de todos os mortos, incluindo as vítimas do Holocausto”.

— Não é toda hora que se faz um pedido de desculpas assim, não é trivial. Não me lembro de casos anteriores, isso não quer dizer que ele nunca tenha pedido desculpas, mas não é algo trivial — disse ao GLOBO Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV. Para ele, esse "recuo" pode estar relacionado a um temor de que Israel deixe sua neutralidade relativa e apoie de forma mais aberta a Ucrânia, como querem países como os EUA, incluindo de forma militar.

Não está claro se a conversa entre Putin e o premier Naftali Bennett servirá para amenizar os impactos das declarações de Lavrov, mas um efeito prático delas foi ressaltar a presença de elementos de extrema direita — e antissemitas — dentro do pensamento político russo, um problema que tem raízes bem mais antigas do que o conflito na Ucrânia.

“Embora a Rússia de Vladimir Putin não seja uma entidade de extrema direita, ela nutriu uma ideologia popular extremista que buscou convencer os russos de que o Ocidente está decadente e corrupto, e que precisa ser derrotado para que os russos prosperem. Essa mensagem foi apoiada por elites corruptas e mesmo ativistas da oposição”, afirmou, em artigo para o Centro de Análises de Políticas Europeias, o cientista político alemão Sergej Sumlenny.

Neste conjunto de ideias, aponta Sumlenny, a imagem fictícia do judeu como representante de um liberalismo “corrupto”, que comanda a “elite global”, surge de forma recorrente em determinados círculos russos, como na imprensa alinhada ao Kremlin.

Ele cita um artigo publicado no popular tabloide Komsomolskaya Pravda, em 2013, em que uma jornalista afirma que “foi uma pena que os nazistas não tenham esfolado os ancestrais (judeus) dos liberais russos — nós não teríamos problemas com eles hoje”.

Outro jornalista/propagandista russo, Vladimir Solovyov, chegou a ser banido da Letônia após dizer que Hitler “era um homem corajoso”, em meio a ataques contra o líder oposicionista Alexei Navalny, no ano passado. Em seu programa no canal Russia 1, em abril, citou nomes de judeus, todos críticos do Kremlin, dizendo que “incitam o ódio contra os russos”.

— Percebo que eles não sabem o que as pessoas querem e qual seria a maneira certa para que as pessoas continuem a acreditar nas mentiras que contam a elas. Por isso, estão jogando tudo contra a parede. Como sabemos, culpar os judeus é uma forma já testada de afastar a culpa de um regime que está falhando — disse ao Haaretz Izabella Tabarovsky, ligada ao centro de estudos Wilson Center, em Washington. Ela aponta ainda que a mídia russa tem um longo histórico de manipular a questão judaica a seu favor.

Nomes apontados como bases do pensamento político dos Anos Putin, como Alexander Dugin e Alexander Prokhanov, também trazem elementos considerados antissemitas em seus trabalhos.

Em 2014, Prokhanov acusou os judeus que apoiaram o Euromaidan, o movimento que derrubou o governo pró-Moscou na Ucrânia, de “apoiarem um segundo Holocausto” — um personagem de seu livro “Sr. Hexogeno" acusava os judeus russos de planejarem roubar o sangue e órgãos de russos saudáveis para vendê-los em Israel.

Como aponta Brandon Hawk, professor da Faculdade de Rhode Island, em artigo no Washington Post, Dugin teoricamente defende os valores de uma sociedade “judaico-cristã” ao mesmo tempo em que “apaga as diferenças e elimina o judaísmo se apropriando dele para o cristianismo”.
'Imperdoáveis'

No caso das declarações de Lavrov, chama a atenção, além da alegação conspiratória há tempos rejeitada por historiadores, a menção a uma suposta colaboração entre judeus e nazistas na Segunda Guerra Mundial. Vale lembrar que uma das justificativas russas para a guerra é a “desnazificação” da Ucrânia, apontando para a suposta presença de neonazistas nos altos escalões do governo em Kiev.

— É sempre difícil entender exatamente o que ocorre internamente, mas Lavrov é muito leal, e não diria isso sem a anuência explícita do presidente. E ele se adapta muito, ele teve um papel conciliador quando a Rússia adotou uma postura conciliadora nos últimos anos, e adota uma postura mais dura quando o presidente pede — afirmou Stuenkel. — Então acho que o comentário dele é mais o reflexo de uma diretriz que vem de cima, de adotar um discurso mais radical, que pode ter a ver com o fato de [o presidente ucraniano] Volodymyr Zelensky ser judeu.

A resposta oficial de Israel aos comentários de Lavrov no domingo não tardou:

— Essas mentiras servem para culpar os próprios judeus pelos mais graves crimes da História e liberar os opressores dos judeus de sua responsabilidade — afirmou o premier Bennett horas depois da entrevista de Lavrov, concedida a uma TV italiana.

No mesmo tom, o chanceler israelense, Yair Lapid, chamou as declarações de Lavrov de “imperdoáveis”.

As reações não parecem ter abalado inicialmente a Chancelaria russa. Na quarta-feira, a porta-voz Maria Zakharova defendeu a posição de Lavrov e investiu contra os israelenses.

—O ministro russo apontou para a indiferença de muitos anos do Estado de Israel sobre a situação do ressurgimento da ideologia neonazista na Ucrânia — disse Zakharova, em entrevista na TV russa. — Por que não ver nada errado nas suásticas e tatuagens fascistas que se tornaram comuns em batalhões nacionalistas? Por que políticos israelenses se tornaram imunes a isso, por anos, e por que não os deixou ultrajados?

A Chancelaria também divulgou, na terça-feira, um artigo de 800 palavras com citações acadêmicas “comprovando” a tese do ministro e renovando os ataques a Zelensky, sugerindo que ele tem sido leniente com os neonazistas.

“As raízes judaicas do presidente [Zelensky] não servem como uma salvaguarda contra o avanço neonazista em seu país. Por sinal, a Ucrânia não está sozinha nessa situação. O presidente da Letônia, Egils Levits, tem raízes judaicas e foi igualmente ‘bem-sucedido’ nos esforços para acobertar [os crimes] da Waffen-SS em seu país”, diz o texto.

Contudo, pesquisadores citados no artigo afirmaram que suas falas foram tiradas de contexto e que não concordam com os argumentos do Kremlin.

— A tentativa de responsabilizar os judeus por suas próprias mortes é uma violação fundamental da verdade histórica e uma declaração antissemita — afirmou ao Haaretz Havi Dreifuss, professora da Universidade de Tel Aviv, ligada ao Museu do Holocausto de Israel. 

— Fiquei incrédula e estupefata com essa tentativa de usar e abusar de minhas declarações dadas em um contexto diferente. Mas estou bem mais perturbada pelas falsas palavras de altos integrantes do governo russo acusando judeus pelos crimes de Hitler e de passar informações falsas sobre os judeus e o Holocausto.


Fonte: O GLOBO

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