Em Bucha, Zelensky aponta 'genocídio' e diz que 'crimes de guerra' dificultam negociações entre Ucrânia e Rússia

Presidente ucraniano fala em 'milhares de pessoas mortas e torturadas'; Moscou nega acusações

Porto Velho, RO — Denunciando "crimes de guerra" que serão "reconhecidos como genocídio", o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta segunda-feira que as negociações entre Rússia e Ucrânia foram dificultadas pelo que descreveu como atrocidades sob a ocupação russa em subúrbios de Kiev, onde foram achados corpos com os braços amarrados pelas costas, uma vala comum e outros sinais de execuções de civis após a retirada das tropas de Moscou do local — a Rússia nega as acusações.

Vestindo um colete à prova de balas e cercado por soldados, Zelensky falou com a imprensa durante visita a Bucha, uma das cidades onde teriam ocorrido as atrocidades:

— Estes são crimes de guerra e serão reconhecidos pelo mundo como genocídio — disse o presidente ucraniano. — Sabemos de milhares de pessoas mortas e torturadas, com membros decepados, mulheres estupradas e crianças assassinadas.

Após Zelensky falar, autoridades ucranianas levaram jornalistas para o porão do que, disseram, era uma casa de veraneio para crianças. Lá, mostraram os corpos de cinco homens com as mãos amarradas nas costas.

As autoridades disseram que as cinco pessoas, que usavam roupas civis, foram mortas por soldados russos que ocupavam a cidade antes das forças ucranianas retomarem o controle local.

— Eles foram baleados na cabeça ou no peito. Eles foram torturados antes de serem mortos — disse Anton Herashchenko, assessor do Ministério do Interior ucraniano. — Agora estamos investigando e mostramos [isso] à imprensa internacional.



A reportagem não pôde verificar de forma independente os relatos, assim como informações de outras autoridades sobre as vítimas na região.

Zelensky disse que se dirigirá ao Conselho de Segurança das Nações Unidas na terça-feira, depois de dizer que é do interesse de Kiev ter a investigação mais aberta sobre o assassinato de civis na Ucrânia.

— Gostaria de enfatizar que estamos interessados na investigação mais completa e transparente, cujos resultados serão conhecidos e explicados a toda a comunidade internacional — disse ele em seu discurso noturno em vídeo.

Mãos amarradas

O prefeito de Bucha, Anatoly Fedoruk, afirmara que cerca de 300 moradores foram mortos durante a ocupação. Segundo a procuradora-geral ucraniana, Iryna Venediktova, ao todo foram encontrados corpos de 410 civis nos territórios da região de Kiev ocupados pelos russos, sendo que 140 foram examinados pelos peritos forenses.

Jornalistas em Bucha viram dezenas de corpos vestindo trajes civis nas ruas, incluindo vítimas com as mãos amarradas pelas costas. Na mesma cidade, imagens de satélite mostraram uma vala comum com quase 14 metros de comprimento cavada no terreno de uma igreja ucraniana. 

No domingo, autoridades anunciaram que uma fossa coletiva tinha mais de 70 corpos, mas não está claro se esta é mesma vala revelada pelas imagens de satélite.

— É muito difícil conversar quando você vê o que eles fizeram aqui — afirmou Zelensky. — Quanto mais a Federação Russa prolongar o processo de negociação, pior será para eles, para esta situação e para esta guerra.

Separadamente, durante visita à Polônia, o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Dmytro Kuleba, disse que as evidências das mortes de civis em Bucha são apenas "a ponta do iceberg" dos "crimes cometidos pelo Exército russo".

— Meias medidas não são mais suficientes. Exijo sanções mais severas esta semana, este é o apelo das vítimas dos estupros e assassinatos. Se você tem dúvidas sobre as sanções, vá a Bucha primeiro — disse Kuleba em entrevista coletiva ao lado da ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Liz Truss.

O Kremlin, por sua vez, negou categoricamente nesta segunda quaisquer acusações relacionadas ao assassinato de civis.

— Esta informação deve ser seriamente questionada — disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a repórteres. — Pelo que vimos, nossos especialistas identificaram sinais de falsificação de vídeo e outras falsificações.

Na sexta-feira, a Rússia acusou a Ucrânia de realizar um ataque aéreo contra um depósito de combustível em território russo, afirmando que isso iria prejudicar as negociações de cessar-fogo entre os dois países. Kiev não negou nem confirmou a responsabilidade sobre o ocorrido.

Com os relatos das mortes de civis na região de Kiev, a indignação internacional contra a Rússia aumentou. A União Europeia disse que prepara com urgências novas sanções para punir Moscou, responsabilizando “as autoridades russas por essas atrocidades, cometidas enquanto detinham o controle efetivo da área”.


Fonte: O GLOBO

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