Califórnia tem epidemia de mortes solitárias de moradores de rua: só no ano passado foram 4.800

Tornou-se fatal ser sem-teto nos EUA, especialmente para homens na faixa dos 50 e 60 anos: 'É como um número de mortos em tempos de guerra em lugares onde não há guerra', diz médica

Porto Velho, RO — Seus corpos foram encontrados em bancos públicos, deitados ao lado de ciclovias, deformados sob viadutos de rodovias e encalhados na praia ensolarada. No ano passado, em todo o condado de Los Angeles, os desabrigados morreram em números recordes, com uma média de cinco mortes por dia, a maioria à vista do mundo ao seu redor.

Segundo dados oficiais do condado, 287 moradores de rua deram seu último suspiro nas calçadas, 24 morreram em becos e 72 foram encontrados no asfalto. Eles foram uma pequena fração dos milhares de sem-teto em todo o país que morrem a cada ano.

— É como um número de mortos em tempos de guerra em lugares onde não há guerra — disse Maria Raven, médica do pronto-socorro de São Francisco e coautora de um estudo sobre mortes de sem-teto.

Uma epidemia de mortes nas ruas das cidades americanas acelerou à medida que a população sem-teto envelheceu. Por outro lado, a maior disponibilidade de fentanil, uma droga particularmente perigosa e de ação rápida, tem se mostrado uma das principais causas do aumento do número de mortes. Além disso, muitos desabrigados morrem jovens de doenças crônicas tratáveis, como doenças cardíacas.

Mais do que nunca, tornou-se fatal ser sem-teto nos EUA, especialmente para homens na faixa dos 50 e 60 anos, que normalmente compõem o maior grupo de desespero. 

Em muitas cidades, o número de mortes de moradores de rua dobrou durante a pandemia, época em que a busca por atendimento médico se tornou mais difícil, em que os custos de moradia continuaram subindo e em que as autoridades de saúde pública estavam preocupadas com o combate ao coronavírus.
Estimativa conservadora

Austin, Texas. Denver. Indianápolis. Nashville, Tennessee. Salt Lake City. Estas são algumas das cidades onde autoridades e defensores dos sem-teto disseram estar alarmados com o número crescente de mortes.

Mas a crise é mais aguda na Califórnia, onde vive um em cada quatro dos 500 mil sem-teto do país.

O processo de contabilização das mortes de moradores de rua é minucioso, envolvendo o cruzamento de bancos de dados de moradores de rua e relatórios de óbitos. Mas, com base em dados de alguns dos 58 condados da Califórnia que relatam mortes de moradores de rua, especialistas disseram que 4.800 são uma estimativa conservadora para o ano passado.

No condado de Los Angeles, a população sem-teto cresceu 50% de 2015 a 2020. As mortes de sem-teto cresceram em um ritmo muito mais rápido, um aumento de cerca de 200% durante o mesmo período, para quase 2 mil mortes no condado no ano passado.

— Estas são mortes profundamente solitárias — disse David Modesbach, que liderou o primeiro estudo público de mortes de sem-teto no condado de Alameda, do outro lado da baía de São Francisco.
Desgaste

Em alguns casos, os corpos ficam sem serem descobertos por horas. Outros não são reivindicados no necrotério, apesar dos esforços para alcançar os membros da família. 

Em São Francisco, onde as pessoas dormindo em caixas de papelão, barracas e outros abrigos improvisados são uma visão comum, o corpo de um sem-teto que morreu em um canteiro de obras na primavera passada ficou por mais de 12 horas antes de ser recuperado: “O cara estava morto aqui e ninguém percebeu”, dizia uma placa de papelão deixada no local.

Quem dorme na rua fala do desgaste que essa situação impõe ao corpo, de várias doenças não tratadas e da solidão de estar cercado por pedestres que te ignoram.

Um estudo do Departamento de Saúde Pública do Condado de Los Angeles descobriu que os sem-teto têm 35 vezes mais risco do que a população em geral de morrer de overdose de drogas ou álcool. Eles também são quatro vezes mais propensos a morrer de doenças cardíacas, 16 vezes mais propensos a morrer em um acidente de carro, 14 vezes mais propensos a serem assassinados e oito vezes mais propensos a se suicidar.

A Califórnia despejou quantias recordes de dinheiro no combate aos sem-teto. O governador Gavin Newsom anunciou um pacote de US$ 12 bilhões para os sem-teto, ano passado, que incluiu fundos para construir 42 mil novas unidades habitacionais.

Em 2017, o condado de Los Angeles votou esmagadoramente para aumentar seu imposto sobre vendas e gerar US$ 3,5 bilhões, em dez anos, para programas de moradores de rua. Desde então, o município já abrigou 78 mil pessoas.

No entanto, as autoridades do condado dizem que não conseguem acompanhar: embora 207 pessoas sem-teto encontrem moradia todos os dias, 227 pessoas ficam desabrigadas todos os dias, calcula o condado.

Envelhecimento

Uma distinção fundamental entre a população sem-teto hoje é o envelhecimento dos indigentes.

Margot Kushel, médica especializada em seu atendimento, acompanhou o aumento da idade média dos sem-teto na área da baía de São Francisco dos 30 e poucos anos, três décadas atrás, até os 50 anos de hoje.

Mas mesmo esse aumento de idade não conta a história completa de sua vulnerabilidade, disse ela. Pessoas sem-teto na faixa dos 50 anos estão apresentando sintomas geriátricos: dificuldade para se vestir e tomar banho, problemas visuais e auditivos, incontinência urinária.

— A pobreza é muito desgastante para o corpo — disse Kushel.

O chefe do Serviço de Saúde Pública dos EUA, Vivek Murthy, disse ter visto um padrão de homens mal preparados para lidar com “gatilhos” da vida, como doenças, e perder o emprego ou o cônjuge.

— À medida que os homens envelhecem, eles tendem a ser menos hábeis em construir e manter relacionamentos — disse ele. — Quando as pessoas não têm uma rede de segurança para acolhê-las na forma de comunidade e relacionamentos fortes e saudáveis, é muito mais provável que acabem lutando contra transtornos por uso de substâncias, doenças mentais e falta de moradia.

Dignidade

Ivan Perez, 53, filosofa ao falar sobre o que fez sua vida sair dos trilhos: o aborto de sua esposa e o fim do casamento; um hábito de maconha que afundou sua carreira como corretor da bolsa; um tempo na cadeia por ter feito um assalto quando estava chapado. Jogatina.

— Quando está sozinho, você meio que não tem desculpas para dizer que é culpa da esposa, é culpa da mãe, culpa da sociedade — diz Perez.

Nos últimos meses, ele dormiu nas ruas em uma barraca perto da estação de metrô North Hollywood. A trilha sonora de sua vida, disse ele, é o ruído dos caminhões que passam ao lado de sua barraca e o barulho dos limpadores de rua.

— Há uma certa postura que você toma quando se torna um sem-teto — diz ele. — Você perde sua dignidade.

Seu objetivo, disse ele, era viver tanto quanto seu pai, que morreu aos 54 anos e meio. Ele não está longe disso.

Perez lembrou-se das esperanças que tinha quando era mais jovem de se tornar ator ou dramaturgo:

— Tentei fazer todas as coisas certas e tudo explodiu na minha cara.


Fonte: O GLOBO

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