Vladimir Putin: como o presidente da Rússia se transformou de estadista em tirano em 22 anos

Habilidade para convencer o Ocidente de que seria um democrata e obsessão pelo fortalecimento do Estado russo explicam o poder longevo do líder do maior país do planeta

Porto Velho, RO — Eleito em 2000, aos 47 anos, depois de uma ascensão meteórica, o presidente Vladimir Putin esteve no Parlamento alemão, em 25 de setembro de 2001, e descreveu “as liberdades e os direitos democráticos” como “objetivos principais da política interna da Rússia”.

— A paz estável no continente é um objetivo essencial para a nossa nação — declarou o ex-oficial da KGB em Dresden.

Os membros do Bundestag aplaudiram de pé. Norbert Röttgen, representante de centro-direita que chefiara a Comissão de Relações Exteriores do Parlamento por vários anos, estava entre os que se levantaram:

— Putin nos capturou — disse ele. — A voz era suave, em alemão, uma voz que tenta fazer você a acreditar no que está sendo dito. Tínhamos alguma razão para pensar que havia uma perspectiva viável de união.

Hoje, com toda a união estraçalhada, a Ucrânia arde sob o Exército invasor que Putin enviou para provar sua convicção de que a nacionalidade ucraniana é um mito. E aquela voz sedutora de Putin se transformou no discurso raivoso de um homem que considera “escória e traidor” qualquer russo que resista à violência de sua ditadura cada vez mais dura.

Entre esses dois homens aparentemente diferentes estão 22 anos de poder e cinco presidentes dos Estados Unidos. À medida que a China crescia, enquanto os EUA lutavam e perdiam suas guerras eternas no Iraque e no Afeganistão, enquanto a tecnologia conectava o mundo em rede, um enigma russo tomou forma no Kremlin.

Os EUA e seus aliados, por excesso de otimismo ou ingenuidade, simplesmente erraram com Putin desde o início? Ou ele foi transformado, ao longo do tempo, no atual belicista revanchista?

Sob a perspectiva de sua aposta imprudente na Ucrânia, surge a imagem de um homem que entendeu quase todos os movimentos do Ocidente como um desrespeito à Rússia – e talvez também a si mesmo. De fato, ele se tornou o Estado, ele se fundiu com a Rússia, tendo seus destinos fundidos em uma visão cada vez mais messiânica de uma glória imperial restaurada.

Das cinzas do império

— A tentação do Ocidente para Putin foi, principalmente, que ele viu isso como instrumental para a construção de uma grande Rússia — disse Condoleezza Rice, a secretária de Estado que se encontrou várias vezes com Putin durante a primeira fase de seu governo. 

— Ele sempre foi obcecado pelos 25 milhões de russos que ficaram fora da Mãe Rússia pela dissolução da União Soviética. É por isso que, para ele, o fim do império soviético foi a maior catástrofe do século XX.

Mas enquanto o ressentimento ficava à espreita, assim como a suspeita de um espião soviético em relação aos EUA, Putin tinha outras prioridades. Ele era um servo patriota do Estado. A Rússia pós-comunista dos anos 1990, liderada por Boris Yeltsin, o primeiro líder eleito livremente do país, havia se dividido.

Em 1993, Yeltsin ordenou que o Parlamento fosse bombardeado para reprimir uma insurgência; 147 pessoas foram mortas. O Ocidente teve que fornecer ajuda humanitária à Rússia, tão terrível foi seu colapso econômico e tão difundida sua extrema pobreza, pois grandes áreas da indústria foram vendidas por uma bagatela para uma classe emergente de oligarcas. Tudo isso, para Putin, representava o caos.

— Ele odiava o que tinha acontecido com a Rússia, odiava a ideia de que o Ocidente tinha que ajudar — disse Christoph Heusgen, o principal conselheiro diplomático da ex-chanceler alemã Angela Merkel, entre 2005 e 2017.

O novo presidente trabalharia com os oligarcas criados pelo capitalismo caótico, de livre mercado e compadrio — desde que mostrassem fidelidade absoluta. Caso contrário, eles seriam expurgados.

Marcado, até certo ponto, por sua cidade natal de São Petersburgo, construída por Pedro, o Grande, no início do século XVIII como uma “janela para a Europa”, e por sua experiência política inicial trabalhando no gabinete do prefeito para atrair investimentos estrangeiros, Putin parece ter sido cuidadosamente aberto ao Ocidente no início de seu governo.

Ele mencionou a possibilidade de adesão da Rússia à Otan ao ex-presidente Bill Clinton em 2000, uma ideia que nunca saiu do lugar. Mas manteve um acordo de parceria assinado com a União Europeia em 1994. E um Conselho Otan-Rússia foi estabelecido em 2002.

Este foi um ato de equilíbrio delicado, para o qual o disciplinado Putin estava preparado.

— Você deve entender, ele é da KGB; mentir é sua profissão, não é pecado — disse Sylvie Bermann, embaixadora francesa em Moscou de 2017 a 2020.

Poucos meses antes do discurso no Bundestag, Putin conquistou o ex-presidente George W. Bush, que, após seu primeiro encontro, em junho de 2001, disse que olhou nos olhos do presidente russo e o considerou “muito direto e confiável”. Yeltsin, igualmente influenciado, ungiu Putin como seu sucessor apenas três anos depois de sua chegada a Moscou, em 1996.
A ascensão

Nascido em 1952 em uma cidade então chamada Leningrado, Putin cresceu à sombra da guerra dos soviéticos com a Alemanha nazista. Os imensos sacrifícios do Exército Vermelho para derrotar o nazismo não eram abstratos, mas palpáveis dentro de sua modesta família. Putin aprendeu jovem que, como ele mesmo já disse, “os fracos são derrotados”.

— Ele acredita profundamente que o homem russo esteja preparado para se sacrificar por uma ideia, enquanto o homem ocidental gosta de sucesso e conforto — disse o francês Michel Eltchaninoff, autor de “Inside the Mind of Vladimir Putin” (“Dentro da mente de Vladimir Putin”, em tradução livre), cujos avós eram todos russos.

Putin trouxe uma medida desse conforto para a Rússia nos primeiros oito anos de sua Presidência. A economia galopava, os investimentos estrangeiros afluíam.

Ainda assim, o maior país da Terra precisava de mais do que uma recuperação econômica para se erguer mais uma vez. Putin havia sido formado em um mundo soviético que sustentava que a Rússia não seria uma grande potência a menos que dominasse seus vizinhos. Rumores nas fronteiras do país desafiaram essa doutrina.

Em novembro de 2003, a Revolução das Rosas na Geórgia colocou o país firmemente no rumo ocidental. Em 2004 — ano da segunda expansão pós-Guerra Fria da Otan, que trouxe Estônia, Lituânia, Letônia, Bulgária, Romênia, Eslováquia e Eslovênia — protestos de rua em massa, conhecidos como Revolução Laranja, eclodiram na Ucrânia. Eles também se originaram de uma rejeição a Moscou e da aceitação de um futuro ocidental.

Um choque com o Ocidente

A partir de 2004, ficou claro um certo endurecimento da Rússia de Putin. O presidente cancelou as eleições para governadores regionais no fim daquele ano, transformando-os em indicados do Kremlin. A TV russa se parecia cada vez mais com a TV soviética em sua propaganda.

Embora Putin tenha retratado uma Ucrânia de inclinação ocidental como uma ameaça à segurança russa, o país hoje invadido tornou-se mais exatamente uma ameaça ao próprio sistema autoritário de Putin.

Foi como disse Radek Sikorski, ex-ministro das Relações Exteriores polonês:

— Putin está certo de que uma Ucrânia democrática integrada à Europa e bem-sucedida é uma ameaça mortal ao Putinismo. Essa é a questão, mais do que a adesão à Otan.

Se alguém duvidava da crueldade de Putin, deixou de duvidar em 2006. A aversão dele à fraqueza ditava uma propensão à violência. No entanto, as democracias ocidentais demoraram a absorver essa lição básica.

Os países ocidentais precisavam da Rússia, e não apenas de seu petróleo e gás. O presidente russo foi um importante aliado naquela que seria chamada de guerra global contra o terror. Combinava com sua própria guerra na Chechênia e com a tendência de se ver como parte de uma batalha civilizatória em nome do cristianismo.

Mas Putin estava muito menos confortável com a “agenda de liberdade” de Bush, anunciada em sua segunda posse, em janeiro de 2005, como um compromisso de promover a democracia em todo o mundo em busca de uma visão neoconservadora.

Esse rancor veio à tona no discurso feroz de Putin em 2007 na Conferência de Segurança de Munique:

— Um Estado e, é claro, principalmente os EUA, ultrapassaram suas fronteiras nacionais em todos os sentidos — declarou para uma plateia chocada.

Um “mundo unipolar” fora imposto após a Guerra Fria com “um centro de autoridade, um centro de força, um centro de tomada de decisão”.

O resultado foi um mundo “no qual há um mestre, um soberano, e no fim das contas isso é pernicioso”. Mais do que pernicioso, era “extremamente perigoso”, resultando “no fato de que ninguém se sente seguro”.

A ameaça da expansão da Otan

Após o discurso de Munique, a Alemanha ainda tinha esperanças em Putin. Merkel, criada na Alemanha Oriental, e que fala russo, criou um relacionamento com ele. No entanto, trabalhar com Putin não poderia significar ditar para ele.

— Acreditamos profundamente que não seria bom trazer a Geórgia e a Ucrânia para a Otan — disse Heusgen. — Eles trariam instabilidade.

O Artigo 10 do Tratado da Otan, como observou Heusgen, diz que qualquer novo membro deve estar em condições de “contribuir para a segurança da área do Atlântico Norte”. Mas não ficou claro para Merkel como os dois países em questão fariam isso.

Os EUA, no entanto, com o governo Bush chegando ao seu último ano, não estavam dispostos a fazer concessões. Bush queria que um “plano de ação para membros” (ou MAP, da sigla em inglês) para Ucrânia e Geórgia, um compromisso específico de trazer os dois países para a aliança, fosse anunciado na cúpula da Otan em abril de 2008 em Bucareste, Romênia.

Já em fevereiro de 2008, os EUA e muitos de seus aliados haviam reconhecido a independência de Kosovo da Sérvia, uma declaração unilateral rejeitada como ilegal pela Rússia e vista como uma afronta a uma nação eslava.

Já a França juntou-se à Alemanha em Bucareste na oposição ao MAP para a Geórgia e a Ucrânia.

O compromisso foi confuso. A declaração dos líderes da Otan dizia que a Ucrânia e a Geórgia “se tornarão membros da Otan”. 

Mas não chegou a endossar um plano de ação que tornaria possível tal adesão. Os dois países ficaram com uma promessa vazia, enquanto a Rússia ficou imediatamente irritada e ofereceu um vislumbre de uma divisão que poderia explorar mais tarde.

Putin foi a Bucareste e fez o que Rice descreveu como um “discurso emocional”, sugerindo que a Ucrânia era um país inventado, notando a presença de 17 milhões de russos lá e chamando Kiev de mãe de todas as cidades russas — uma afirmação que se transformaria em uma obsessão.

Nós contra eles

A eclosão de grandes protestos de rua no fim de 2011, com manifestantes exibindo cartazes que diziam “Putin é um ladrão”, cimentou sua convicção de que os EUA estavam determinados a levar uma revolução colorida à Rússia.

Sob pressão dos EUA, a Rússia se absteve em uma votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 2011 para uma intervenção militar na Líbia, que autorizou “todas as medidas necessárias” para proteger os civis.

Quando essa missão, na percepção de Putin, transformou-se na busca pela derrubada de Muamar Kadafi, que foi morto pelas forças líbias, o presidente russo ficou furioso. Esta foi mais uma confirmação da ilegalidade internacional dos EUA.

Michel Duclos, ex-embaixador francês na Síria e agora conselheiro especial do think tank Instituto Montaigne em Paris, aponta 2012 como o ano da “escolha de repolarização” definitiva de Putin.

— Ele se convenceu de que o Ocidente estava em declínio após a crise financeira de 2008 — disse Duclos. — O caminho a seguir agora era o confronto.

Quando Putin viajou para Kiev, em julho de 2013, em uma visita para marcar o 1.025º aniversário da conversão ao cristianismo do príncipe Vladimir I, ele prometeu proteger “nossa pátria comum, a Grande Rus”.

O arco de 22 anos do exercício do poder de Putin é, em muitos aspectos, um estudo de sua audácia crescente. Com a intenção inicial de restaurar a ordem na Rússia e ganhar respeito internacional, ele se convenceu de que uma Rússia rica em receitas de petróleo e novos armamentos de alta tecnologia poderia desfilar pelo mundo, mobilizar força militar e encontrar pouca resistência.

Ao expulsar seu líder apoiado por Moscou em uma revolta popular sangrenta, em fevereiro de 2014, e assim de fato rejeitar a bajulação multibilionária de Putin para se juntar à União Eurasiática em vez de buscar um acordo de associação com a UE, a Ucrânia cometeu o imperdoável. Para Putin, isso foi, ele insistiu, um “golpe” apoiado pelos EUA.

A anexação da Crimeia por Putin e a orquestração do conflito militar no Leste da Ucrânia, que criou duas regiões separatistas apoiadas pela Rússia, vieram em seguida.

Duas décadas antes, em 1994, a Rússia havia assinado um acordo conhecido como Memorando de Budapeste, segundo o qual a Ucrânia abriu mão de seu vasto arsenal nuclear em troca de uma promessa de respeito à sua soberania e às fronteiras existentes. Mas Putin não tinha interesse nesse compromisso.

Os EUA e a maior parte da Europa — menos os Estados mais próximos da Rússia — deslizaram na crença raramente questionada de que a ameaça russa, enquanto crescia, estava contida; que Putin era um homem racional cujo uso da força envolvia uma séria análise de custo-benefício; e que a paz europeia estava assegurada.

A guerra na Ucrânia

O impensável pode acontecer. A guerra de escolha da Rússia na Ucrânia é prova disso.

No isolamento da Covid-19, todas as obsessões de Putin sobre os 25 milhões de russos perdidos da sua pátria na dissolução da União Soviética parecem ter coagulado.

Que a Ucrânia marcou Putin de uma maneira profundamente perturbadora é evidente no tratado de cinco mil palavras sobre “A unidade histórica de russos e ucranianos” que ele escreveu em seu isolamento, em meados do ano passado, e distribuiu aos membros das forças armadas. Organizando argumentos que remontam ao século IX, ele disse que “a Rússia foi roubada, de fato”.

Em retrospectiva, sua intenção era bastante clara, muitos meses antes da invasão.

Mas por que agora?

Putin havia concluído há muito tempo que o Ocidente é fraco, dividido, decadente, entregue ao consumo privado e à promiscuidade. A Alemanha tinha um novo líder e a França, uma eleição iminente. Uma parceria com a China foi cimentada. A falta de informações o convenceu de que as tropas russas seriam recebidas como libertadores em amplas áreas do Leste da Ucrânia.

Mas de uma só vez, Putin galvanizou a Otan, acabou com a neutralidade suíça e o pacifismo alemão do pós-guerra, uniu uma UE muitas vezes fragmentada, prejudicou a economia russa nos próximos anos, provocou um êxodo massivo de russos instruídos e reforçou, de uma forma que será indelével, exatamente o que ele negava existir: a nacionalidade ucraniana.


Fonte: O GLOBO

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