Rússia anuncia redução 'drástica' de ataques em Kiev e arredores, e Ucrânia aceita neutralidade

Em negociações na Turquia, representantes ucranianos indicaram que houve avanços também para possível encontro entre os presidentes Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky

Porto Velho, RO — Quatro horas de negociações entre russos e ucranianos, ocorridas de forma presencial pela primeira vez em duas semanas, resultaram nesta terça-feira em avanços na direção de um eventual cessar-fogo e de um acordo posterior que ponha fim à guerra, iniciada em 24 de fevereiro com a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Após as negociações, ocorridas em Istambul com a mediação do presidente turco, Recep Erdogan, um representante do Ministério da Defesa da Rússia anunciou que as tropas do país vão reduzir "drasticamente" os ataques em Kiev e nos arredores da capital ucraniana, além da cidade de Chernihiv, no Norte da Ucrânia. 

Já a Ucrânia detalhou sua proposta de aceitar um status de neutralidade militar, incluindo a promessa de que não se juntará à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nem permitirá a presença de militares estrangeiros em seu território, em troca de garantias de segurança.

Os representantes ucranianos em Istambul ainda indicaram que houve avanços também para um encontro entre os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, uma demanda de Kiev desde antes do início da guerra, mas que até agora vem sendo ignorada pelo Kremlin.

Por enquanto, o principal resultado concreto é a promessa de Moscou de reduzir sua ofensiva em algumas áreas da Ucrânia, incluindo nos arredores de Kiev, onde as forças terrestres estão relativamente estagnadas, apesar dos ataques aéreos recorrentes, que também atingiram prédios residenciais e instalações médicas. 

Na sexta-feira, a Rússia já havia indicado uma redução da escala de sua ofensiva, afirmando que a primeira etapa havia sido concluída e que se concentraria em "libertar" a região de Donbass, no Leste da Ucrânia, onde separatistas pró-Moscou enfrentam as forças ucranianas desde 2014.

Nesta terça, em Istambul, o vice-ministro da Defesa russo, Alexander Fomin, disse que a redução dos ataques a Kiev e outras áreas é destinada a "incrementar a confiança mútua para futuras negociações, com o objetivo de acertar e assinar um acordo de paz com a Ucrânia".

— Partimos do princípio de que decisões importantes e relevantes serão tomadas em Kiev, e serão criadas condições para que o trabalho ocorra de forma normal — declarou Fomin, citado pela TV russa RBC.

O principal negociador russo, Vladimir Medinsky, ressaltou que a promessa de redução dos ataques ainda não é um cessar-fogo.

— Isso não é um cessar-fogo, mas essa é nossa aspiração, de gradualmente alcançar uma redução do conflito pelo menos nessas duas frentes — disse ele à agência Tass.

Não foram feitas referências aos combates no Leste ucraniano, onde há ainda uma intensa batalha pelo controle da cidade de Mariupol, no Mar de Azov, contíguo ao Mar Negro, que já está quase toda sob controle russo .

Horas antes de os dois lados se sentarem à mesa em Istambul, o Financial Times havia antecipado pontos que estariam em discussão, a começar pela desistência do lado russo de incluir exigências relacionadas a "desnazificação", "desmilitarização" e "proteção do status do idioma russo" na Ucrânia, que, ao lado da antiga demanda ucraniana para ingressar na Otan, compuseram a justificativa para a invasão militar.

O próprio presidente Putin usou os argumentos em diferentes momentos do conflito, e presumia-se inicialmente que um dos objetivos russos fosse a derrubada do governo de Zelensky e a instalação de um regime aliado em Kiev. 

Com a redução das metas militares anunciadas na sexta, especula-se que a "desnazificação" ficará restrita à derrota em Mariupol do Batalhão Azov, milícia neonazista incorporada à Guarda Civil ucraniana e que tem atuado desde 2014 contra os separatistas pró-Moscou de Donbass.

Nesta terça, nenhum dos dois lados se referiu a tais pontos nas declarações a jornalistas.
Garantias para a Ucrânia

Kiev já havia sinalizado que aceitaria o status de neutralidade em troca de garantias de segurança, o que foi confirmado pelos negociadores nesta terça.

— Se conseguirmos consolidar essas disposições-chave, e para nós isso é o mais fundamental, então a Ucrânia estará em posição de realmente fixar seu status atual como um Estado que não fará parte de um bloco e será não nuclear, na forma de neutralidade permanente — disse o representante ucraniano Oleksander Chaly. 

— Não vamos abrigar bases militares em nosso território, assim como não empregar contingentes militares em nosso território, e não entraremos em alianças político-militares.

Sobre as garantias de segurança, a proposta traz uma linguagem similar à do Artigo 5 do tratado que rege a Otan, e que considera um ataque contra um de seus integrantes como um ataque a todos. Na prática, os garantidores se veriam obrigados a intervir em apoio à Ucrânia em caso de violação de sua integridade territorial. 

Nesta terça, os ucranianos sugeriram que Estados Unidos, China, França e Reino Unido — membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — e também Turquia, Alemanha, Polônia e Israel façam parte do grupo de países garantidores.

Em entrevista ao Financial Times, David Arakhamia, líder do partido de Zelensky no Parlamento e integrante da equipe de negociação, disse tal proposta precisaria ser aprovada em referendo pela população um processo que poderia levar até um ano.

— A única questão definida é o tipo de garantias internacionais que a Ucrânia busca, mas temos que receber a aprovação dos garantidores, caso contrário, o acordo jamais sairá do papel — disse Arakhamia.

Vladimir Medinsky, o negociador russo, afirmou, por sua vez, que examinará as propostas ucranianas e as reportará ao presidente Vladimir Putin. As negociações foram o primeiro encontro cara a cara desde 10 de março, quando as reuniões passaram a ser realizadas por videoconferência.

— Essas propostas serão consideradas em um futuro próximo, relatadas ao presidente, e nossa resposta será dada — disse Medinsky.

Segundo ele, Moscou não se opõe à entrada de Kiev na União Europeia, um processo que já está em andamento e que conta com o apoio de vários países-membros, mas que não deve ocorrer de forma rápida.

Também foram feitas concessões relacionadas ao status da Península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk. De acordo com Medinsky, a Ucrânia aceitou negociar um eventual retorno dessas áreas ao seu território, mas em um momento posterior a um cessar-fogo, e elas não estariam incluídas nas garantias internacionais de segurança exigidas pela Ucrânia.

— A Ucrânia renuncia ao desejo de retomar a Crimeia e Sebastopol por meios militares, e declara que isso só é possível por meio de negociações. Claro, isso não corresponde de forma alguma à nossa posição, mas a Ucrânia apresentou sua própria abordagem — declarou Medinsky ao Canal 1 de Moscou.

Hoje, a Rússia considera que a Crimeia é parte integrante de seu território, e que tal anexação atendeu a um desejo da população local, oficializado em plebiscito ocorrido em 2014, mas não reconhecido por boa parte da comunidade internacional. De acordo com os negociadores ucranianos, o status futuro da região passará por um período de 15 anos de consulta, a ser iniciada após um cessar-fogo completo.

Quanto às repúblicas separatistas do Leste, Moscou reconheceu suas declarações de independência dias antes do início da guerra, e as autoridades locais já sinalizaram a intenção de realizar plebiscitos para se juntar à Federação Russa.

O Ministério das Relações Exteriores da Turquia confirmou que as negociações não continuarão na quarta-feira, e uma fonte próxima às equipes de negociação declarou que as conversas, quando forem retomadas, acontecerão por videoconferência. 

Em declarações à imprensa, Medinsky afirmou que o diálogo em Istambul foi "significativo", e afirmou que uma reunião entre Putin e Zelensky está mais perto de acontecer.

— Após as discussões significativas de hoje [terça-feira] nós decidimos e propusemos uma solução, segundo a qual é possível a reunião dos chefes de Estado simultaneamente com a assinatura do tratado por parte dos ministros das Relações Exteriores — disse o negociador.

— Com a condição de que se trabalhe rapidamente no acordo e se encontre o compromisso necessário, a possibilidade de chegar à paz estará muito mais perto, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

A posição de Arakhamia, pelo lado ucraniano, soou mais otimista:

— Os resultados da reunião de hoje [terça-feira] são suficientes para um encontro em nível de chefes de Estado — declarou.


Fonte: O GLOBO

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