Mansur: 'Era Textor' no Botafogo pode ajudar a construir algo no futebol nacional?

Novos donos de clubes brasileiros podem ter um fator transformador, mas quem chega não pode decidir jogar exatamente o mesmo jogo praticado aqui

Porto Velho, RO - Num ecossistema tão castigado com questões estruturais, do calendário aos gramados, é inegável que os novos donos de clubes brasileiros podem ter um fator transformador. 

Alguns vêm de outras culturas, ou ao menos têm vivências em ambientes onde a organização das competições procura, ao menos, valorizar a embalagem daquilo que se entrega ao público. 

Tal discussão sobre o poder transformador é especialmente pertinente quando os novos proprietários de clubes vivem, pela primeira vez, a semana que encerra os Estaduais.

Mas tal potencial só será exercido se duas condições forem satisfeitas. A primeira, que os responsáveis por gerir os campeonatos no Brasil estejam receptivos a novas ideias. A segunda, se quem chega não decidir jogar exatamente o mesmo jogo praticado aqui.

Em outro contexto, a postagem no Twitter em que John Textor, novo dono da SAF do Botafogo, afirma que o “Carioca de 2023 será um grande torneio para o Botafogo B” poderia ser celebrada: um novo dono, com outra cultura, enxergando o anacronismo de Estaduais que comprimem o Campeonato Brasileiro, este sim o produto nobre. Seria bem-vinda a promessa explícita de um dirigente de trabalhar pela efetiva reforma do calendário.

Mas quando Textor o faz imediatamente após um jogo encerrado sob imensa controvérsia em torno da arbitragem, não é possível ter apenas a abordagem positiva. 

Fica uma indisfarçável impressão de discurso datado, de filme repetido, de uma prática antiga no Brasil e usual justamente por parte do tipo de dirigente que nos conduziu ao atraso: "como o resultado não me agradou e eu atribuo o placar ao árbitro, eu desqualifico o produto e digo que não jogo mais". Minutos antes de ir ao Twitter, ele falara ao canal da jornalista Aline Bordallo no YouTube: “Vamos nos posicionar na Federação”. Algo similar aos tradicionais diretores de futebol voluntários.

Falas nestes contextos dão uma contribuição infinitamente menor à que Textor e os novos donos podem dar ao futebol nacional. 

É fato que o Carioca é um produto que se desvalorizou, mas até uma reforma acontecer, é este produto que ocupa um terço do calendário do clube que Textor comprou. Tomara que a promessa não seja esquecida quando uma arbitragem o beneficiar. E que, de fato, os novos atores do nosso jogo tentem efetivamente ser transformadores.

A reta final dos Estaduais impõe saber lidar com resultados. E, principalmente, interpretá-los. No clássico de domingo, passou à decisão um Fluminense cujo rendimento é bem abaixo do desejável, embora tenha sido, durante um tempo, mascarado por resultados. 

Inclusive quando avançou na primeira etapa da Libertadores. Diante de um Botafogo que jogou o Estadual bem fragilizado, o tricolor foi dominado no segundo tempo. Em dado momento do ano, Abel parecia ter um times e estilos diferentes na Libertadores e no Estadual. Após a contundente eliminação na Libertadores, parece ter surgido um híbrido ainda mal resolvido das duas equipes.

É normal um time não estar pronto a esta altura do ano, e os últimos Fla-Flus, mesmo com favoritismo rubro-negro, mostraram um Fluminense capaz de competir. E, muitas vezes, de vencer. O tricolor não chega à final como mero figurante, mas as sensações que o time deixa não tem sido boas, em especial quando se pensa no restante da temporada.

Pelo lado alvinegro, começa agora um novo ano, talvez uma nova etapa da história. Por ora, não surgirá um time galáctico, mas superior à equipe que tentou competir bravamente no Estadual em meio a tantas limitações. E que, mesmo assim, só foi eliminada com um amargo gol no minuto final. Mais do que o árbitro, o futebol foi cruel com o Botafogo no domingo. A "Era Textor" pode virar tal página. E ajudar a construir algo novo no futebol nacional.

FINAL PAULISTA

A classificação do São Paulo evidenciou algo além do progresso do time de Rogério Ceni, que sob o ponto de vista tático é dos mais promissores treinadores brasileiros. Do outro lado, está um Corinthians que prova como nem sempre a reunião de qualidade técnica resulta em juntar talentos complementares. Fazer deste elenco um time competitivo, intenso como pede o jogo atual, é mais complexo do que parece.

CELEBRAÇÃO À VIDA

Não houve momento mais tocante no fim de semana do que a entrada em campo do dinamarquês Eriksen, em seus primeiros minutos com a seleção nove meses após a parada cardíaca sofrida em campo na Eurocopa. 

A forma como foi recebido e ovacionado pela torcida holandesa, inclusive após marcar um gol sobre os donos da casa, prova que ali se celebrava a vida. Muito além do resultado esportivo.

A CÓPIA

Momentos de crise são propícios à disseminação de tolices. Que o diga a Itália, fora do segundo Mundial seguido. O ex-técnico Fábio Capello disse que o erro do país é "copiar o estilo de Guardiola sem ter qualidade". Primeiro, engana a audiência com a tese de que o "estilo Guardiola" só é acessível a craques e de que o trabalho de um treinador pode ser "copiado". Depois, esquece que, seja lá com que estilo, a Itália venceu a Eurocopa há nove meses.


Fonte: O GLOBO

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