Líderes ocidentais se reúnem contra a Rússia em Bruxelas, e Biden adverte Putin contra ataque químico na Ucrânia

Aliança militar concorda em mandar mais soldados para membros do Leste Europeu e busca oferecer demonstração de unidade contra Putin no dia em que guerra completa um mês

Porto Velho, RO - Líderes do Ocidente prometeram nesta quinta-feira novas sanções e mais auxílio humanitário para a Ucrânia, mas suas ofertas não corresponderam aos pedidos de ajuda militar mais robusta feitos pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em duas participações por vídeo durante as cúpulas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), do G7 e da União Europeia (UE) — na primeira vez em que esses encontros em nível de chefias de Estado e governo ocorreram no mesmo dia.

Com objetivo de mostrar unidade do Ocidente contra a Rússia, a cúpula tripla aconteceu em Bruxelas exatamente um mês após o começo da guerra na Ucrânia, o pior conflito na Europa desde as guerras dos Bálcãs, nos anos de 1990. 

Nos encontros, os líderes também discutiram a possibilidade de o presidente russo, Vladimir Putin, recorrer a um ataque químico, biológico ou até mesmo nuclear durante o conflito.

Ao G7, o ucraniano Zelensky afirmou ver um risco "real" de Putin, contrariado pelas dificuldades que suas tropas têm encontrado no campo de batalha, autorizar o uso de armas químicas.

Em seu comunicado, a Otan disse que seu apoio à Ucrânia inclui ajudar a protegê-la com sistemas de defesa contra possíveis ataques desse tipo, afirmando que “qualquer uso pela Rússia de uma arma química ou biológica seria inaceitável e resultaria em graves consequências”.

Em sua primeira viagem ao exterior desde o início da guerra, o presidente Joe Biden alertou que os EUA responderiam a um ataque químico russo.

— Responderíamos se ele (Putin) usasse. A natureza da resposta dependeria da natureza do uso — disse Biden durante uma coletiva em Bruxelas.

Entretanto, uma autoridade da Casa Branca afirmou, posteriormente, que a declaração não indicava nenhuma mudança na posição dos EUA contra uma ação direta na Ucrânia. 

Desde o início do conflito, Biden e seus aliados da Otan afirmam que os EUA e a alinça não devem enviar tropas ao país pelo risco de escalada com um confronto direto com a Rússia.

Na mesma coletiva, Biden também manifestou apoio à expulsão da Rússia do G20, o grupo que inclui as 20 maiores economias do mundo, incluindo estados autoritários como China e Arábia Saudita, e a UE. 

Se isso acontecesse, a Rússia não poderia comparecer à próxima Cúpula do G20, em 30 de outubro, em Bali, na Indonésia. Biden afirmou, no entanto, que isso depende de outros países membros.

— Depende do G20. Isso foi levantado hoje — disse Biden. — Mas se a Indonésia como organizadora e outros não concordarem, talvez a Rússia ainda esteja presente, mas também pedimos pela presença da Ucrânia.

Biden, o único líder fora da UE a participar do encontro do bloco nesta quinta-feira, também anunciou que os EUA receberão 100 mil refugiados ucranianos "com foco em reunir famílias" e destinarão mais de US$ 1 bilhão em assistência humanitária aos ucranianos afetados pela invasão da Rússia.

O presidente americano também disse que a UE e a Otan estabelecerão um sistema para verificar se há violação das sanções impostas contra a Rússia. Ele também indicou que, para funcionar, as sanções têm que ficar em vigor por muito tempo.

— Isso vai pará-lo — disse Biden se referindo a Putin, que descreveu como "brutal".

Na parte da manhã, a Otan, que já aumentou expressivamente sua presença nas fronteiras orientais da Europa desde o início da guerra, com cerca de 40 mil soldados espalhados do Báltico ao Mar Negro, concordou em estabelecer quatro novas unidades de combate em Bulgária, Romênia, Hungria e Eslováquia.

— Concordamos em fortalecer nossa dissuasão e defesa em longo prazo. Também concordamos em dar mais apoio à Ucrânia e continuar a impor custos à Rússia — disse o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, que teve seu mandato prorrogado por um ano na cúpula, até setembro de 2023.

Ainda não há detalhes sobre o reforço, mas os Estados Unidos concordaram em fornecer uma companhia de infantaria mecanizada Stryker para a unidade da Bulgária, que terá até mil soldados. 

O primeiro-ministro búlgaro, Kiril Petkov, disse que o governo britânico se comprometeu a fornecer mais de 150 soldados britânicos ao mesmo grupo, e que há negociações com a Itália.

A Reuters informa também que mais jatos serão destacados para a região e, segundo um alto funcionário americano, os EUA e seus aliados pretendem apoiar a Ucrânia com mísseis antinavio.

— Juntos, estamos mostrando coordenação e força — disse Petkov a repórteres em Bruxelas.
Sem tanques ou jatos

O premier britânico, Boris Johnson, disse que os aliados ocidentais estão trabalhando para “aumentar a ajuda letal” à Ucrânia “na quantidade e com a qualidade” necessária para defender o país, mas que essa ajuda provavelmente não se estenderá a tanques e jatos.

— Logisticamente parece muito difícil, tanto no caso de blindados quanto de jatos — disse ele. — O equipamento que achamos mais valioso no momento são mísseis, que eles podem usar para se defender.

Boris também afirmou que "nenhuma democracia ocidental está atualmente pensando em pisar com suas botas no chão na Ucrânia, nem está disposta a impor uma zona de exclusão aérea no país". 

A Otan já rejeitou pedidos da Ucrânia para fechar o espaço aéreo da Ucrânia de ataques aéreos russos — o que, na prática, significaria que aviões de países-membros precisariam entrar diretamente em combate contra aeronaves russas.

O presidente Zelenskiy, que participou das cúpulas da Otan e do G7 por videochamada, reclamou que o Ocidente não forneceu à Ucrânia tanques ou sistemas antimísseis modernos e pediu que a Otan "salve" seu país com uma "ajuda militar sem restrições".

— A Otan ainda não mostrou o que pode fazer para salvar as pessoas — disse Zelenskiy na cúpula, acusando Putin de também pretender atacar os membros do Leste da Otan, incluindo a Polônia e os países bálticos.

Zelensky reclamou de como o Exército ucraniano é percebido por parte da Otan. Embora a entrada do país na organização seja uma meta oficial da aliança desde a Declaração de Bucareste, de 2008, a Ucrânia nunca de fato teve a admissão como uma meta viável, supostamente por não atender padrões técnicos — o que desconsidera a dimensão geopolítica que uma admissão acarretaria.

— Nunca, por favor, nunca mais nos digam que nosso Exército não atende aos padrões da Otan. Mostramos do que nossos padrões são capazes. E quanto podemos oferecer à segurança comum na Europa e no mundo — disse Zelensky.

Depois de sua reunião, os membros do G7 se disseram prontos para adotar "sanções adicionais" contra a Rússia. Além disso, o G7 e a UE concordaram em bloquear as transações que envolvam as reservas de ouro do Banco Central da Rússia, para impedir que Moscou se esquive das sanções ocidentais, indicou a Casa Branca.

Estados Unidos e Reino Unido anunciaram mais sanções contra deputados, magnatas e entidades russas. As medidas do Reino Unido incluem sanções contra o Gazprombank e Alfa Bank, bem como uma mulher que Londres disse ser enteada de Sergei Lavrov, o chanceler de Putin.

Antes da cúpula da UE, que se prolonga até amanhã, o chefe de Política Externa d o bloco, Josep Borrell, antecipou que os líderes discutirriam como continuar os envios de armas e equipamentos militares europeus para a Ucrânia, além de “garantir que essas coisas funcionem e as pessoas possam usá-las”.

— O que temos que fazer é continuar apoiando o Exército ucraniano — disse ele. — As próximas duas semanas decidirão de que lado virá a vitória.

A cúpula europeia, que reúne os 27 chefes de Estado da UE e acontece seis vezes por ano, tem outros itens na pauta, como a energia europeia e a Covid-19.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, disse a repórteres que não espera que os líderes da UE concordem com sanções adicionais conjuntas, embora a Holanda apoie as medidas.


Fonte: O GLOBO

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