Guerra na Ucrânia completa um mês sem fim à vista, com campanha estancada, negociações difíceis e crise humanitária

Neblina da guerra dificulta acesso a dados confiáveis, mas é possível afirmar que planos da Rússia não saíram como o esperado

Porto Velho, RO - A invasão russa da Ucrânia completa um mês nesta quinta-feira sem um fim à vista, com uma crise humanitária em andamento, uma campanha militar estagnada e negociações diplomáticas entre Moscou e Kiev com dificuldades para avançar.

Os dados disponíveis sobre a guerra são muito incompletos e divergem muito para que seja possível fazer estimativas confiáveis. Sabe-se que há uma crise humanitária de grandes proporções e que as 

forças russas sofreram muitas baixas, enquanto os dados sobre a Ucrânia são mais obscuros. Estimativas de mortes de civis e de perdas do lado ucraniano são menos confiáveis, por haver menos dados públicos sendo verificados por agências de inteligência da sociedade civil, como a Bellingcat, enquanto os governos de Rússia e Ucrânia tentam superestimar conquistas e esconder derrotas.

No êxodo mais rápido dentro da Europa desde a Segunda Guerra, cerca de 10 milhões de ucranianos — pouco menos de 25% da população do país, de 44 milhões — precisaram sair de suas casas por causa do conflito. 

Mais de 3,6 milhões de pessoas cruzaram a fronteira ucraniana para buscar refúgio em outros países, segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). A maioria dos refugiados fugiu para países vizinhos como Polônia e Romênia, mas 271 mil cruzaram a fronteira para a Rússia.

Enquanto isso, cerca de 6,5 milhões de pessoas estão deslocadas internamente, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM). As estimativas da OIM – baseadas em entrevistas por telefone com amostragens – indicam que mais de 53% dos deslocados internos são mulheres e mais de 60% das famílias deslocadas incluem crianças.

Os números de mortos são mais difíceis de estimar. O último boletim do Acnur, com dados até a terça-feira, confirma um total de 953 mortos, incluindo no mínimo 78 crianças, e 1.557 feridos. 

O próprio Acnur, no entanto, ressalta acreditar que “os números reais são consideravelmente maiores, pois o recebimento de informações de alguns locais onde ocorreram intensas hostilidades está atrasado”.

Os números do primeiro mês de guerra

Na falta de dados confiáveis, balanço é baseado em estimativas

Autoridades de Mariupol informaram na segunda-feira que mais de três mil civis morreram na cidade sitiada do Sudeste ucraniano, onde há relatos de valas comuns e de corpos abandonados nas ruas. 

Outras cidades, como Chernihiv, a 146 km de Kiev, e Sumy, no Nordeste, também foram muito bombardeadas e devem registrar quantidades consideráveis de vítimas civis não contadas. De acordo com o Acnur, a “maioria das baixas civis registradas foi causada pelo uso de armas explosivas com uma ampla área de impacto, incluindo bombardeios de artilharia pesada, sistemas de lançamento múltiplo de mísseis e ataques aéreos”.

As notificações sobre perdas de soldados dos dois lados são muito desiguais. O Pentágono informou na quarta-feira que 10% da força de combate russa, de entre 150 mil e 190 mil soldados, foram mortos ou estão feridos. Também ontem, o Ministério da Defesa ucraniano disse que já tirou de combate 15,3 mil soldados russos.

O único informe de Moscou reconhecendo baixas é de 2 de março, e fala em 498 soldados russos mortos. 

Os números de soldados ucranianos são ainda mais incertos: na última vez que reconheceu baixas, no dia 12 de março, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que o seu lado perdeu 1.300 soldados. Já o Ministério da Defesa russo, também em 2 de março, falou que 2.780 ucranianos foram mortos.

Os registros de perdas de equipamentos também são muito desiguais, com muito mais informes sobre a Rússia. 

Segundo os analistas de conflitos holandeses Stijn Mitzer e Joost Oliemans, que colaboram com o Bellingcat e mantêm o site Onyx, onde monitoram e compilam documentos de veículos e armas destruídos, há várias razões para isso: em primeiro lugar, segundo eles, “a menos que um lado seja amplamente superado, o agressor sempre sofre maiores perdas”.

Além disso, há muito mais pessoas documentando as perdas do lado russo do que do lado ucraniano, o que produz um quadro díspar: segundo a dupla, enquanto há provas documentais de 1.741 veículos e equipamentos russos destruídos ou danificados, do lado da Ucrânia só há registros de 513 veículos e equipamentos perdidos.

Estagnação na campanha

Em termos de campanha, duas das três frentes russas — as do Norte, onde fica Kiev, e do Sul, onde está Odessa — estão estagnadas. Estudiosos militares entendem que a Rússia atacou áreas demais da Ucrânia ao mesmo tempo, o que dispersou suas tropas e ocasionou problemas logísticos. 

No momento, precisa parar a campanha para se reagrupar. Isto gera oportunidades de contra-ataques para a Ucrânia, o que se verifica em subúrbios de Kiev, como Makariv.

Na outra frente, a Leste, a Rússia conduz cercos a cidades como Mariupol e Kharkiv. Se conseguir dominar as duas cidades e criar uma ponte entre elas, a Rússia terá uma vantagem para dominar toda a área. 

A reivindicação da independência das áreas do Leste na região de Donbass, onde separatistas pró-Moscou estão em guerra com forças ucranianas desde 2014, dominando boa parte do território, pode ser um dos objetivos estratégicos da Rússia.

Quanto a estes, há indícios de que, frente às dificuldades militares, Moscou vá desistir de tirar o presidente Zelensky do poder para substituí-lo por um governo fantoche. No lugar disso, o Kremlin busca metas para que possa reivindicar vitória. 

Além da soberania sobre o Donbass, um objetivo secundário é a desmilitarização da Ucrânia. Isto se verifica nos ataques contra a infraestrutura militar ucraniana, incluindo bases aéreas e indústrias armamentistas.

Não há previsão para o fim do conflito. Na terça-feira, tanto o principal negociador ucraniano, Mikhaylo Podolyak, quanto o chanceler russo, Serguei Lavrov, disseram que as negociações são “difíceis”. O lado russo acusou os EUA de criarem "obstáculos" para as negociações.

As negociações agora acontecem diariamente por videoconferência. Ambos os lados esperam usar vantagens obtidas no campo de batalha para barganhar mais em um acordo de paz. Os dois governos já disseram ter havido avanços para a Ucrânia aceitar a “neutralidade militar", o que significa que o país não poderá entrar em alianças como a Otan. 

A soberania sobre o Leste, sobre a Península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, e as garantias de segurança que a Ucrânia pede seguem em aberto, assim como qual será o destino das sanções impostas contra a Rússia.

Segundo Tatiana Stanovaya, pesquisadora do Centro Carnegie Moscou, a resistência ucraniana complicou os planos de Putin, acostumado com sucessos militares rápidos e contundentes.

— A dúvida não é tanto o que Putin pretende obter, mas de que maneira e a que preço — ela disse à AFP.


Fonte: O GLOBO

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