Diáspora russa no exterior se volta contra Putin, diz professora que está no Brasil há 10 anos

Svetlana Ruseishvili afirma que resistência também cresce entre mulheres, que assumiram protagonismo inédito dos dois lados do conflito

Porto Velho, RO — Mulher, russa, socióloga, imigrante no Brasil, com família na Ucrânia. A pesquisadora Svetlana Ruseishvili, da Universidade Federal de São Carlos, vive e analisa a guerra por diferentes prismas. 

Como especialista em diáspora russa na América Latina e no Brasil, onde mora há mais de dez anos, conta que a comunidade russófona nunca esteve tão unida na oposição às decisões do presidente Vladimir Putin. 

A resistência também cresce entre mulheres, que assumiram protagonismo inédito dos dois lados do conflito. No lado pessoal, Svetlana diz que nunca imaginou ver tamanha destruição na capital ucraniana, Kiev, onde cresceu, e em outras localidades do país onde alguns parentes permanecem.

— Estudo a diáspora russa dos exilados que saíram a partir da Revolução Bolchevique e da Guerra Civil, e hoje parece que a História está se repetindo. Mas com uma diferença. A comunidade russófona sempre foi muito polarizada na questão política. 

Tradicionalmente, alguns apoiam o regime de Putin e outros são de oposição. Mas hoje há muito mais pessoas se opondo à guerra. Há uma consciência de que, sem o regime de Putin, não haveria guerra nem repressão. Isso não existia na diáspora russa histórica — diz.

Svetlana nasceu na Geórgia e morou em Kiev Foto: Acervo pessoal

Mães de soldados

Dentro da Rússia, enquanto Putin manda prender críticos da guerra e sinaliza com um aumento da repressão, mulheres e jovens criam uma nova resistência, diz a socióloga.

— Precisamos olhar para o papel das mulheres nessa guerra, seja na Rússia, na Ucrânia ou na Bielorrússia. Mulheres são 20% do Exército na Ucrânia, confeccionam armas caseiras, trabalham nos centros de comunicação de guerra. 

Do outro lado da fronteira, há um movimento feminista e de mães russas em expansão. E ainda há uma opositora exilada, grande figura política de insurreição popular, que é mulher [a bielorrussa Svetlana Tikhanovskaya, ex-candidata à Presidência]. 

São papéis muito diferentes dos de cuidado, tradicionalmente associados às mulheres — enumera.

O movimento de mães de soldados russos, muitos deles jovens recrutas enviados ao front sem treinamento adequado, tem ajudado a expor realidades da guerra que a propaganda oficial tenta omitir. 

No conflito atual, impactadas pelos relatos dos filhos na guerra, mães russas viraram fonte alternativa de informação sobre a realidade da invasão e ajudam no despertar de uma consciência que não existiu em ofensivas anteriores.


— Existe um movimento de mães de soldados que nasceu com a guerra na Chechênia, uma guerra sangrenta e de muitos anos, e as mulheres que perderam seus filhos se uniram em coletivo para se opor e manifestar. 

Mas a causa cresceu mais agora com essas mulheres vendo seus filhos serem mandados à Ucrânia em uma guerra para morrer. Claro que é um movimento reprimido, assim como o movimento feminista tem sido bastante reprimido nos últimos 20 anos na Rússia, mas está se expandindo — conta Svetlana.

Oposição e repressão têm crescido com força especialmente nos últimos dez anos, a partir também de uma divisão geracional na Rússia. 

Jovens nascidos nos anos 2000 não viveram a crise econômica dos anos 1990 e não compartilham dos “valores tradicionais” que Putin defende na Rússia, lembra a socióloga. Com a guerra, essa resistência ficou ainda mais evidente nas grandes cidades russas. 

Algo bem diferente de 2014, quando a anexação da Península da Crimeia pela Rússia fez subir a popularidade do governo.
Contra boicotes

Agora, até mesmo na população russófona que vive na Ucrânia, muitos decidiram parar de usar o russo no cotidiano e dão preferência ao ucraniano como ato de repúdio à invasão, conta Svetlana.

— Por meio de pequenas ações de desobediência civil e por meio do êxodo massivo de pessoas jovens que se opõem à guerra e que estão saindo da Rússia, se cria um ambiente contrário à guerra. 

E isso vai mudando e desafiando essa imagem manipulada do que está acontecendo na Ucrânia e que está sendo transmitida pela TV do regime — afirma.

Por outro lado, diz, os boicotes ensaiados no exterior a produtos e elementos da cultura russa têm efeito oposto, fortalecendo o discurso oficial contra o Ocidente.

— Boicotes são terreno fértil para o governo russo dizer que o Ocidente quer que os russos vivam na miséria. 

Esse cancelamento da cultura russa no exterior já está sendo usada pelo regime, em propaganda na TV, para dizer que o Ocidente despreza os russos e que é preciso que os russos se unam contra o Ocidente — conta a socióloga. 

— Cancelar a cultura russa não fará diferença nenhuma para ajudar a terminar essa guerra. Ao contrário.

Mesmo há tantos anos no Brasil, Svetlana mantém ligação diária com a Rússia e com a Ucrânia. Nasceu na Geórgia, mas a família saiu de lá no começo dos anos 1990 e se estabeleceu em Kiev, capital ucraniana. Svetlana cresceu ali, e fez faculdade em Moscou.

Família no porão

Especializou-se em sociologia das migrações e do refúgio de toda a comunidade russófona, independentemente de nacionalidade: russos, ucranianos, bielorussos, cazaques, todo o espaço pós-soviético que ainda fala russo. 

Quando a invasão começou, foi a primeira a tentar convencer a família a sair de Kiev. Mas alguns permanecem em Odessa, cidade portuária no litoral ucraniano do Mar Negro transformada em fortaleza nessa guerra.

— Minha família em Kiev ficou dias sob bombardeio, escondida no porão. Pressionei muito para que saíssem, e há uma semana conseguiram fugir. Mas a família de Odessa continua lá — conta Svetlana.

Abalada com a distância, sem poder ajudar os amigos e parentes que ficaram, escolheu uma frente de ação.

— Estabeleci que minha vida pessoal e conhecimento profissional das migrações, do refúgio, da situação na Ucrânia e na Rússia e das relações históricas entre os dois países seriam minha frente de batalha no Brasil. 

Havia muito desconhecimento no começo, muita gente falando besteira. Desde então escrevo, informo, pensando como ajudar a que se entenda melhor o que acontece lá — afirma.

Cada vislumbre de avanço nas negociações para o fim do conflito, diz, é uma esperança, mas ela lembra que, quanto mais a guerra se estender, pior será para todos:

— A cada dia que isso durar Putin terá menos chances de sair como vencedor, algo essencial para a manutenção do regime. 

Ele não pode perder essa guerra e vai inventar uma maneira de sair com algum ganho — diz. — E aí está o problema, a imprevisibilidade de uma reação que pode reverberar em mais destruição e mortes. Isso precisa acabar logo.

E quando acabar, acrescenta, por mais difícil que seja de prever, a reconstrução passará por um sentimento oposto ao pregado pela repressão russa.

— A Ucrânia sempre foi um país inclusivo e espero que possa se reconstruir assim depois da guerra — afirma. — O grande desafio é entender que o caminho para o futuro não é um nacionalismo etnocêntrico. 

É um nacionalismo cívico, em que todas as pessoas, sem importar religião, idioma, etnia, vão ser iguais dentro dessa nação. É um grande sonho.


Fonte: O GLOBO

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