‘China e Brasil têm posições semelhantes ou idênticas’ sobre guerra na Ucrânia, diz chefe da embaixada chinesa

Segundo Jin Hongiun, Estados Unidos e Europa impõem à Rússia sanções ‘extremas e sem precedentes’, mas posicionamento da China sobre a questão da Ucrânia é ‘objetiva e imparcial’

Porto Velho, RO — À frente do posto desde que o embaixador Yang Wanming voltou para seu país, o encarregado de negócios da Embaixada da China, Jin Hongiun, afirmou ao GLOBO que, mesmo divergindo em votações da ONU, brasileiros e chineses têm posições semelhantes sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia: são contra a aplicação de sanções econômicas aos russos e defendem o diálogo para um acordo de paz. 

Mas ambos os países têm votado de forma diferente na ONU e em fóruns como os Brics. 

Esta é a primeira vez que um representante de Pequim em Brasília fala sobre a crise no Leste Europeu e o papel do Brasil, e após o representante da embaixada americana no Brasil, Douglas Koneff, comentar o posicionamento do Itamaraty sob o governo Jair Bolsonaro.

Por que a China não condenou a ação militar da Rússia contra a Ucrânia? Isto é uma aprovação tácita da invasão?

A China sempre defende a paz e se opõe à guerra. É desolador ver qualquer país em conflitos armados. Diante da crise na Ucrânia, o que precisamos considerar é o que deve ser feito para resolver de fato o problema. Obviamente, a condenação e as sanções não têm esse efeito. 

Quanto mais complicada a situação, mais importante é manter a calma e a razão, priorizando o cessar-fogo entre as partes. 

Em relação ao conflito russo-ucraniano, a China defende que a soberania e a integridade territorial de todos os países devem ser respeitadas, os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas devem ser cumpridos, as legítimas preocupações de segurança de todos os países devem ser levadas a sério, e todos os esforços conducentes à resolução pacífica da crise devem ser apoiados.

O que a China tem feito, como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para ajudar a acabar com a guerra?

Como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e país responsável, a China vem fazendo todo o possível para trazer as partes à mesa de diálogo e negociações. 

No primeiro momento do conflito, a China já propôs à Rússia iniciar conversações de paz com a Ucrânia e vem trabalhando com a comunidade internacional para assumir um papel construtivo no processo de aliviar as tensões e promover o diálogo de paz. 

Ao mesmo tempo, a China acompanha de perto a situação humanitária na Ucrânia, apresentou iniciativas relevantes e tomou medidas concretas nesse sentido. A Cruz Vermelha da China está enviando ajuda humanitária de emergência à Ucrânia, os suprimentos estão chegando às mãos de refugiados. Novas remessas serão enviadas conforme as necessidades.

O senhor acredita que esse conflito pode gerar uma nova Guerra Fria?

A crise atual é resultado de uma combinação de fatores e da deflagração de desavenças acumuladas ao longo dos anos. Estrategistas ocidentais como George Kennan, Henry Kissinger e John Mearsheimer já haviam alertado sobre esta crise muito tempo atrás. 

Para encontrar o cerne da questão, será que não vale a pena refletir sobre a expansão irrestrita da Otan para o leste? A solução de longo prazo para garantir a segurança reside no respeito mútuo entre as principais potências, no abandono da mentalidade da Guerra Fria e de grupos confrontantes, construindo gradualmente uma arquitetura de segurança global e regional equilibrada, eficaz e sustentável. 

Os Estados Unidos e a Otan devem entrar em diálogo com a Rússia para desvendar o cerne da crise ucraniana e abordar as preocupações de segurança tanto da Rússia quanto da Ucrânia.

O Brasil foi o único país do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que votou a favor de uma resolução condenando os ataques à Ucrânia pela Rússia. Os demais membros abstiveram. Como o Brics deveria se posicionar em relação a essa guerra?

O Brics é um mecanismo de cooperação entre mercados emergentes e países em desenvolvimento, ao mesmo tempo que constitui uma força importante para a evolução da ordem internacional, o aprimoramento da governança global e a defesa do multilateralismo. 

Os membros do Brics têm posições semelhantes sobre a crise Rússia-Ucrânia, isto é, defender o princípio do respeito à soberania, independência e integridade territorial de todos os países, apoiar a manutenção do ímpeto das conversações de paz em busca da resolução de disputas através do diálogo e das negociações. 

Na presidência rotativa do Brics este ano, a China vai manter comunicações intensas com o Brasil sobre a salvaguarda conjunta da paz, da segurança, da justiça e da equidade no mundo, a defesa do multilateralismo e a recuperação estável da economia mundial.

O Brasil condenou a invasão, mas já deixou claro que não concorda com a aplicação de sanções econômicas contra a Rússia. Como a China vê esse posicionamento da diplomacia brasileira?

O Brasil é um país soberano e independente e nós respeitamos plenamente sua posição. Em relação à crise ucraniana, devo dizer que nossos dois países compartilham posições semelhantes ou idênticas. Ambos os países repudiam, por exemplo, o abuso das sanções. 

A China sempre se opõe às sanções unilaterais que não tenham fundamento no direito internacional, nem o aval do Conselho de Segurança. A história tem mostrado em repetidas ocasiões que sanções abusivas são como tentar apagar fogo com lenha, ou seja, em vez de resolver o problema, pioram os conflitos. 

Os Estados Unidos e a Europa estão impondo à Rússia sanções abrangentes e extremas sem precedentes, que ainda se agravam e se expandem. A essência desta ação é tornar a globalização uma "arma", o que terá severos impactos nas finanças, na energia, nos transportes e nas cadeias de suprimentos do mundo, prejudicando a recuperação da economia global e trazendo danos a todos os povos. 

A China e o Brasil também compartilham a mesma posição de promover a negociação de paz. O diálogo e a negociação são a maneira correta de lidar com questões internacionais e regionais. Ostentar o confronto jamais propicia a paz. 

A China apela a todos os países para concentrar seus esforços na criação do ambiente e das condições necessárias para o diálogo e a negociação, ao invés de aumentar o conflito jogando mais lenha na fogueira.

A China apoiará economicamente ou militarmente a Rússia?

Há quem alegue que a China sabia dos ataques de antemão ou tomou partido na questão da Ucrânia. Tudo isso não passa de desinformação feita com o propósito sinistro de negar os esforços da China e distorcer suas intenções. 

A posição da China sobre a questão da Ucrânia sempre foi objetiva e imparcial. Nossos julgamentos e manifestações são feitos de forma independente com base nos méritos dessa questão. O que a China forneceu ao povo ucraniano foi ajuda humanitária, e não armas e munições a um lado ou outro. 

A Rússia é um vizinho importante da China, e os dois Estados soberanos têm o direito de desenvolver suas relações com base no direito internacional. A relação de confiança mútua com a Rússia permite que a China desempenhe um papel especial nos esforços internacionais para promover as conversações de paz.

Os Estados Unidos defendem que os países que têm alguma relação com a Rússia, como a China e o Brasil, usem sua influência sobre Moscou para acabar com o a guerra. O senhor avalia que o Brasil pode ajudar de alguma forma?

O Brasil é uma potência emergente com relevância global e uma força importante na manutenção da paz mundial e na promoção do desenvolvimento global. Certamente pode desempenhar e está desempenhando um papel significativo. 

A China vai manter uma comunicação frequente com o Brasil sobre a situação regional e internacional para que os dois países possam trabalhar juntos para desempenhar um papel ainda mais construtivo.

Como a China vê os impactos da guerra no fornecimento global de alimentos e fertilizantes?

A situação na Ucrânia acentua ainda mais os riscos de crise em alimentos, energia e finanças. Os países do mundo já enfrentam muitas dificuldades, como a pandemia, os conflitos, a recessão, o endividamento, a inflação, o desemprego e a fome. 

A humanidade está em uma encruzilhada, onde está o futuro? Neste momento, cada país e cada indivíduo deve assumir sua responsabilidade. Devemos prezar pela paz e manter a estabilidade, em vez de praticar um jogo de soma zero e dividir o mundo. 

Devemos ter respeito mútuo, ser abertos e inclusivos, ao invés de criar confrontos, semear divisões e erguer muros. Devemos ainda nos unir para lidar com os desafios, em vez de agir sempre em interesse próprio e transferir a culpa a terceiros.

Há quem associe a crise da Ucrânia à questão de Taiwan, dizendo que se a China resolver a questão de Taiwan pela força, será uma ameaça à segurança regional e até mesmo global. Qual é o seu comentário a esse respeito?

A diferença fundamental entre a questão de Taiwan e a da Ucrânia é que Taiwan é uma parte inseparável da China, portanto se trata de um assunto interno, enquanto a disputa entre Rússia e Ucrânia acontece entre dois Estados soberanos. Não há comparação entre um assunto com o outro. 

O princípio de “Uma só China" é o consenso geral da comunidade internacional, uma norma reconhecida nos relacionamentos internacionais, assim como uma importante premissa e base política para a China estabelecer e desenvolver relações diplomáticas com qualquer país. 

Algumas pessoas, enquanto enfatizam o princípio da soberania na questão da Ucrânia, prejudicam a soberania e a integridade territorial da China na questão de Taiwan. É um ato flagrante de duplo padrão. Ao especular "chantagem militar" da parte continental sobre a ilha, criar hostilidade e exagerar tensões, obviamente eles não estão trabalhando para promover a paz e a estabilidade da região. 

A China sempre defende e contribui para a segurança e estabilidade da região Ásia-Pacífico e do mundo inteiro, e jamais criou problemas. Trabalhamos e continuaremos a trabalhar com a maior boa-fé para solucionar a questão de Taiwan por meios pacíficos. 

Ninguém está mais preocupado com a paz e tranquilidade de seus compatriotas de Taiwan do que os 1,4 bilhão de chineses, e a segurança e o bem-estar deles dependem inteiramente do desenvolvimento pacífico das relações entre os dois lados do Estreito e da reunificação nacional. 

O que motivou a tensão atual no Estreito de Taiwan foi a tentativa das autoridades da Ilha de buscar a "independência", desrespeitando os interesses fundamentais dos compatriotas de ambos os lados do Estreito. 

Aqueles países que equiparam a questão de Taiwan com a crise na Ucrânia devem manter a coerência entre suas palavras e ações. Esperamos que eles coloquem na prática seu compromisso com o princípio de “Uma só China”, se abstenham de emitir sinais errados às forças secessionistas de Taiwan e contribuam de forma positiva para a paz e estabilidade regional.


Fonte: O GLOBO

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